A BEIRA
O vento cortava o oitavo andar como faca aberta.
Augusto deu um passo à frente.
O coração firme.
A voz gelada.
— Vamos acabar com isso, Lucas. — disse. — Sem mais feridos. Sem mais sangue. Sem mais inocentes morrendo por algo que acabou há décadas.
Lucas deu um riso curto — um riso quebrado.
Frio.
— Inocentes. — repetiu, cuspindo a palavra como veneno.
Ele virou a arma para José.
— Eu posso não ter tido a vingança do jeito que eu queria… mas você, velho… — os olhos dele brilharam, vermelhos — você vem comigo pro inferno.
Francisco deu dois passos.
Não rápido.
Não teatral.
Só… firme.
— Lucas. — ele chamou, e a voz veio como quem sangra. — Se existe alguém para culpar… é a mim.
Lucas hesitou.
Só um segundo.
A arma oscilou.
Francisco continuou:
— Há vinte e cinco anos, seu pai chegou aqui bêbado. Tomado pela suspeita. Cego pelo ciúme. — a voz dele tremia, mas não parava. — Ele empurrou Emanuel. Emanuel tentou se defender. Mas seu pai era maior. Mais forte. Foi rápido demais.
Silêncio.
O tipo de silêncio que enche o peito e quebra por dentro.
Francisco continuou, o rosto encharcado de lágrimas:
— Ele não fez por mal. Ele não planejou. Mas ele viu. Viu o corpo no chão. Viu o sangue. E ele nunca se perdoou.
Lucas respirava curto, o peito subindo rápido demais.
Francisco tirou um papel dobrado do bolso.
Aquele papel parecia pesar o mundo.
— Sua mãe me deixou isso. — ele disse. — Era para eu te entregar. Era para eu ter te contado. Mas eu… — a voz falhou — eu achei que esconder ia te proteger. Eu achei que você ia sobreviver melhor ao silêncio.
Ele colocou a carta na mão de Lucas.
Lucas começou a ler.
E o mundo parou.
Os olhos dele encheram.
A boca tremeu.
— Não… — ele sussurrou. — Não… não… não…
O papel tremia nos dedos.
— Por que ela… — ele disse, olhando para cima, para o céu sem forma — POR QUE ELA NÃO ME DISSE?!
Augusto viu.
Agora Lucas não era o inimigo.
Não era o monstro.
Era só um menino quebrado demais para entender que o mundo não devia ter sido tão cruel com ele.
Mas então—
Augusto percebeu onde Lucas estava.
A beira.
O concreto terminava a menos de um passo atrás dele.
Se ele se movesse mais um centímetro — caía.
Mortes sempre voltavam para onde começaram.
Augusto engoliu seco, estendendo a mão, devagar.
— Lucas… — ele chamou, baixo. — Olha pra mim. Olha pra mim. Você não precisa repetir o final dele. Você não precisa ser ele.
Lucas chorava sem som.
Sem controle.
Só dor.
Foi quando o grito estourou no ar:
— LUCAS! — um capanga surgiu no topo da escada, sem fôlego. — A POLÍCIA! Eles estão aqui!
O outro segurança levantou a arma na hora, apontando para Augusto.
Augusto reagiu, instintivo — corpo firme, mãos abertas, visão fixa.
Francisco prendeu a respiração.
José fechou os punhos.
Lucas deu um passo para trás.
Um passo a mais.
Um passo perigoso.
O vento fez a poeira subir.
E então —
Silêncio.
Só o vento.
Só o abismo.
Só a decisão de uma vida inteira presa entre o ódio e a dor.
___
O mato ainda estava balançando quando o sargento chegou ao último quarto.
— Limpo! — gritou um dos policiais.
O sargento passou os olhos pelo espaço.
Cama vazia.
Algumas roupas no chão.
Uma tesoura jogada no canto.
E sangue.
Pouco.
Mas o suficiente para dizer luta.
Outro policial apareceu na porta, ofegante:
— O outro capanga fugiu. Correu para o mato.
O sargento cerrou os dentes.
— E a garota?
O terceiro policial respondeu, a voz tensa:
— Não está na casa. Deve ter corrido. Ou foi levada.
Silêncio pesado.
— Lucas, vamos — gritou Francisco, a voz mais alta do que deveria, suplicante. — Acabou. A gente pode fazer diferente agora.
José aproximou-se, cada palavra medida, tentando costurar um futuro que parecia impossível:
— Você é inteligente, Lucas. Sempre foi. Pode mudar sua história. Você não precisa carregar isso pra sempre.
Lucas virou o rosto. Olhou para José. Depois para Francisco. Depois para Augusto.
Os olhos dele eram poços de uma coisa que não tinha nome.
— Por que ele fez isso comigo? — perguntou, como quem tenta entender uma equação sem resposta.
E a resposta veio em flash: um menino de sete anos, deitado na cama, o pai sentado na beira, voz baixa e venenosa.
*
— Filho, tudo que aconteceu foi culpa do José Monteiro. Ele destruiu nossas vidas. Promete que você vai vingar o papai?
— Pai, o que aconteceu? Estamos bem? Você, a mamãe, eu...
— Filho, papai te ama, mas por erro do José Monteiro amanhã papai não vai mais estar aqui. Promete se vingar do José?
— Sim, pai. Eu vou me vingar.
O beijo do pai. A porta que se fecha. O menino que promete.
*
— Monstro — Lucas sussurrou, olhando para a fenda aberta ante os pés.
Foi então que o som da realidade veio com peso de chumbo: passos firmes na escada, couro batendo no concreto. Thomas e a equipe invadiram o oitavo andar como tempestade contida.
— Deita no chão! — ordenou Thomas. — Perdeu!
O mundo ficou em câmera lenta. Sutileza das armas, o brilho das miras, homens se rendendo. Dois capangas caíram no concreto quando policiais surgiram por trás. O choque foi seco, quase cirúrgico.
Mas Lucas não olhou para trás. Ele fitou o chão, a carta ainda tremendo na mão. A memória, a promessa, a raiva — tudo se condensando numa única escolha.
Thomas berrou, a ordem para romper o silêncio:
— Lucas, chão! Agora!
O toque do celular de José cortou o ar como faca.
Aquele som era mundo voltando a girar. Como se o bip tivesse costurado a existência de volta ao presente.
Lucas ergueu os olhos devagar. Havia dor neles — uma dor tão larga que parecia eclipsar tudo. Francisco gritou, uma mão esticada no vácuo:
— Lucas, não!
Augusto deu dois passos, rápido demais, instinto de salvar, instinto de dono.
Mas a vida, naquele momento, ganhou outra velocidade.
Sem hesitar — ou talvez com toda hesitação do mundo — Lucas se afastou um passo da borda.
Outro. O concreto sob os pés parecia menos sólido que a decisão que o empurrava.
O corpo se lançou num movimento curto, fatal.
O ar abriu-se para ele. A cidade ficou pequena debaixo.
Os olhos de todos foram puxados para baixo, acompanhando o deslocar do corpo contra o céu.
Um segundo que durou uma eternidade.
O celular de José continuou tocando.
Francisco caiu de joelhos, um som preso na garganta. Augusto correu, porém foi tarde — o vento levou o corpo antes que pudessem alcançá-lo.
O toque do telefone de José.
Como se o toque tivesse trazido a vida real de volta.
Como se alguém lá embaixo ainda pudesse falar alguma coisa que consertasse o irremediável.
Lucas não ouviu mais nada.
Mas o telefone não parou.
E, por fim, num silêncio cortante que pesou como uma sentença, a vida terminou como se fosse nada.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...