ROTA DO PENHASCO
No oitavo andar do prédio vermelho, mais uma página sombria era escrita no histórico do lugar.
José e Francisco imóveis, como se o tempo tivesse recuado vinte e cinco anos; a memórias devolvia daquele dia que nunca os deixou em paz. O concreto cru, o vento que cortava o vão das janelas, tudo parecia conspirar para repetir a tragédia.
No silêncio pesado do andar, o telefone de José não parava de tocar. No automático, ele atendeu e encaixou o aparelho na orelha.
— José? — a voz saiu curta do outro lado, urgente.
— Márcia, onde você está? Como você está? — José perguntou com pressa.
— José, você precisa vir — a voz dela tremia, como se segurasse o telefone com as duas mãos — venha sozinho… até o penhasco.
— O penhasco do lado leste da fazenda, quarenta minutos pela trilha que segue o rio.
— Márcia… com quem você está? — José perguntou. A voz saiu baixa, mas o frio já subia pela coluna dele.
— Com o Antônio — ela respondeu, engolindo o choro. — Me desculpa… eu pensei que conseguia salvar a Eloi—
A frase se quebrou.
Algo — uma mão, um puxão, um medo — arrancou o resto.
Antônio puxou o telefone da mão dela.
— Que bonitinho. Comovente. — disse ele, um sorriso cruel desenhando o rosto. — Não banque o esperto, José. Diferente do Lucas, eu não tenho sentimentos.
A voz de Antônio ficou gelada:
— Na mata já tem meus homens. Ordem clara: policial que aparecer, morto.
A ligação caiu.
Augusto buscou os olhos de José, encontrando apenas o olhar perdido no chão. Virou-se para Thomas, a urgência clara na voz:
— Cadê a Eloise?
— Quando a polícia invadiu a fazenda ela não estava lá — Thomas respondeu, controlado, mas firme. — Já colocamos equipes na mata. Vamos achar ela.
José explodiu:
— Não!
Ele se virou para Thomas, com a face marcada pela culpa e pelo medo:
— Antônio disse que tem homens na mata e que receberam ordem para matar qualquer policial que apareça.
O ar no andar pareceu ficar mais denso. A possibilidade de resgate transformou-se em corrida contra uma mira. Tudo o que antes era plano meticuloso virou risco imediato.
Augusto cerrou os punhos. Na cabeça dele, cada segundo era uma conta a pagar — e cada homem armado na mata podia transformar busca em funeral.
Thomas apertou o rádio.
— Todas as equipes, atenção máxima. Cavou-se uma linha de cerco, mas precisamos ser rápidos e silenciosos. Eles têm vantagem de terreno.
O relógio marcava segundos que pareciam facas. E, lá fora, entre árvores e trilhas, homens com ordens de atirar já se moviam.
Lá embaixo, junto ao pé do prédio vermelho, o corpo de Lucas jazia estendido no concreto — o rosto pálido iluminado por uma lua endurecida. Francisco ajoelhou-se ao lado, as mãos trêmulas pousando sobre o ombro do sobrinho como quem tenta prender o que já voou. Thomas ficou a uma distância respeitosa; a operação exigia cabeça fria mesmo diante daquele espetáculo de dor.
— Vou pedir perícia e o IML. — Thomas murmurou, seco. — Fica com o senhor um policial até a equipe chegar, para assistência.
Colocaram um homem ao lado de Francisco; silêncio protocolar, condolência cumprida em gesto profissional. Mas, antes que o tempo pudesse se curvar ao luto, Thomas levantou o queixo.
— O jogo não acabou. — disse, com voz curta. — Nós vamos buscar a Eloise. Vamos acabar com isso.
Trinta minutos depois. Mais de sete veículos policiais cortaram a estrada, levantando poeira como uma nuvem de aço. Homens armados desembarcaram, coletes, fuzis, movimentação que mais parecia um ritual: velocidade precisa, passos ensaiados.
Na ponte, os carros alinhavam como peças de um tabuleiro.
— Vocês vão seguir por ali — apontou para a estrada que saía margeando o rio — dois policiais vão acompanhar vocês, mas vão manter distância. Eles são snipers. Quando for a hora, vão agir, estejam prontos.
Thomas entregou a arma para Augusto. Este a pegou com as duas mãos, abriu o ferrolho, verificou o tambor, sentiu o peso das balas como quem mede uma promessa.
José fez o mesmo: movimento cirúrgico, mãos firmes. Não havia pânico — havia um silêncio placado de aço na garganta. A vingança e a salvação exigiam disciplina.
O sargento responsável pela batida na fazenda, se aproximou.
— Pelos relatos dos vizinhos — o sargento falou baixinho, juntando informações — não tem mais que cinco homens no local. Vimos dois carros parados mais à frente. Parece um grupo pequeno. Mas cuidado: nervo ruim mata tanto quanto arma.
— Entendido. — Thomas respondeu. — Vamos acabar com isso.
O sargento assentiu, apertando a correia do rádio. Havia aquela calma tensa nos olhos dele — a mesma calma que veste quem já viu muito e precisa ver mais.
Augusto também concordou com a cabeça, os olhos vermelhos como quem traz chama no fundo. A determinação dele não era ódio histérico; era propósito cortante.
Caminharam por cerca de vinte minutos pela trilha que levava ao penhasco — passos medidos, carregando o peso de tudo que estava por resolver. A mata os engolia e devolvia só o som dos coturnos batendo na terra.
O Águia disse, com a voz baixa e precisa:
— Vocês seguem agora sozinhos. Dois minutos até o penhasco. Nós vamos monitorar. Analisamos e, quando for o momento, atiramos.
Augusto e José ouviram. Confirmaram com um nó de cabeça e seguiram.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...