Heitor encarava o celular sobre a mesa, o nome de Lais ainda ali, a um simples toque de distância. Os dedos chegaram a se mover, quase instintivamente, mas pararam antes mesmo de completar o gesto. Ele recostou-se na cadeira, passando a mão pelo rosto em um suspiro contido. Não era falta de vontade — muito pelo contrário —, mas, pela primeira vez em muito tempo, decidiu se conter. Se Lais quisesse, ela o procuraria. E, por mais incômodo que fosse, ele precisava respeitar o tempo dela.
Na MonteiroCorp, o dia de Lais seguiu em um ritmo completamente oposto. O trabalho se acumulava, as demandas não davam espaço para pausas e, mesmo quando tentava se concentrar, sua mente insistia em voltar para a noite anterior, para a proposta, para Heitor. Ainda assim, mergulhou nas tarefas como se isso pudesse silenciar o turbilhão interno. Quando finalmente saiu, já estava exausta — física e mentalmente. O trajeto de volta pareceu mais longo do que o normal, os dois ônibus cheios, o corpo pesado, a paciência no limite.
Ao chegar em casa, não tirou nem a bolsa direito. Foi direto para o banheiro, ligou o chuveiro e, no instante em que a água gelada tocou sua pele, fechou os olhos com força. Aquilo já estava passando dos limites. Respirou fundo, sentindo a irritação crescer de forma inevitável, e desligou a água com um movimento brusco. Não. Naquele dia, não ia aceitar aquilo como mais uma coisa normal. Ainda enrolada na toalha, saiu do box decidida, encarando o chuveiro como se fosse um problema que finalmente precisava ser resolvido.
Subiu no pequeno apoio, puxando a fiação com cuidado — ou pelo menos tentando — enquanto analisava sem realmente saber o que estava fazendo. O silêncio do banheiro foi interrompido por um estalo seco que veio sem aviso. O choque percorreu sua mão em um instante, fazendo o corpo inteiro reagir. Lais soltou o fio imediatamente, sacudindo a mão com força enquanto xingava, a dor pulsando ainda viva.
— Porra!
O coração disparou, a respiração descompassada, e, antes que pudesse se recompor completamente, as luzes da casa se apagaram.
O escuro tomou conta de tudo.
Por um segundo, ela apenas ficou parada, tentando processar o que tinha acabado de acontecer, ainda sentindo o formigamento nos dedos. Então saiu do banheiro às pressas, ainda enrolada na toalha, a voz ecoando no corredor.
— Laila!
A porta do quarto se abriu quase imediatamente, a luz da lanterna do celular cortando o escuro.
— O que aconteceu?
Lais apareceu no vão da porta, o cabelo ainda molhado, a expressão misturando irritação e frustração.
— Fui mexer no chuveiro… — respondeu, apontando para trás. — Tava cansada de tomar banho gelado. Acho que mexi no que não devia.
Laila ficou em silêncio por um instante, encarando a irmã, e então deixou escapar uma risada.
— Não é possível… — balançou a cabeça, divertida. — Você é hacker, mexe com sistema, computador, essas coisas todas… mas não sabe mexer num chuveiro?
Lais fechou a cara imediatamente, cruzando os braços.
— Muito engraçado.
A risada da irmã diminuiu aos poucos, dando lugar a uma expressão mais prática.
— Tá… mas e agora?
O silêncio que veio em seguida foi diferente. Mais pesado. Mais real.
Lais olhou para o banheiro escuro, depois para o resto da casa, como se tentasse encontrar uma solução ali, em algum canto que não existia. Toda a irritação deu lugar a algo mais silencioso, mais profundo — uma sensação incômoda de limite, de cansaço, de realidade batendo mais forte do que deveria.
Ela soltou o ar devagar.
— Eu… não sei.
Lais ficou alguns segundos parada no meio da sala escura, o celular na mão, a luz fraca da tela iluminando apenas o suficiente para não se sentir completamente perdida. O silêncio da casa parecia mais pesado do que o normal, como se tudo ao redor reforçasse aquilo que ela tentava ignorar há tempo demais: ela não dava conta de tudo sozinha. Nunca deu. Só se acostumou a fingir que sim.
Pedir ajuda nunca foi fácil. Na verdade, era uma das coisas que ela mais evitava. Desde cedo, aprendeu a resolver, a se virar, a não depender de ninguém. Era mais seguro assim. Menos risco de decepção, menos chance de ficar na mão. Mas, naquela noite, com a casa no escuro, o chuveiro quebrado e o cansaço acumulado pesando nos ombros, não tinha mais para onde correr.
Ela respirou fundo, segurando o ar por um segundo antes de soltar devagar, como se estivesse reunindo coragem em cada movimento. Olhou o nome na tela. Nathalia.
Pensou.
Hesitou.
E então ligou.
A chamada nem chegou a completar o segundo toque.
— Oi, vaca! — a voz animada veio do outro lado, leve, como sempre. — Como você está?
Lais não conseguiu evitar um pequeno sorriso, mesmo no meio do caos.
— Oi, Nathi… — começou, a voz um pouco mais baixa. — Liguei pra pedir um favor. Desculpa a hora… e incomodar.
— Que nada, você nunca incomoda — Nathalia respondeu na mesma hora, sem espaço pra dúvida.
Lais passou a mão pelo cabelo ainda úmido, andando devagar pela sala enquanto falava.
— Amiga… aqui em casa ficou sem luz. Eu fui mexer no chuveiro… — soltou um suspiro curto, quase sem graça. — Enfim, longa história. Eu… queria saber se posso dormir aí hoje. Desculpa mesmo pedir isso, mas pelo horário… não sei se vou conseguir alguém pra resolver...
Nathalia nem deixou ela terminar.
— Lais, você não precisa me explicar tudo — interrompeu, com firmeza, mas sem perder o tom acolhedor. — Eu sou sua amiga. É pra isso que eu tô aqui.
O peito de Lais apertou de leve.
— Vai direto pro meu apartamento. Vou avisar o porteiro pra te entregar a chave extra que fica na recepção — continuou Nathalia. — Eu tô com o meu gato hoje, Mas fica à vontade.
Lais fechou os olhos por um segundo, aliviada de um jeito que nem sabia que precisava.
— Muito… muito obrigada, Nathi. Sério.
Fez uma pausa, mordendo o lábio antes de perguntar:
— Tem problema eu levar a Laila?
Do outro lado, Nathalia soltou uma risada leve.
— Lais, lógico que não, sua doida. Vai deixar ela aí no escuro. E para de agradecer tanto.
O tom brincalhão voltou, mas o cuidado ainda estava ali.
— Só vai, faça de conta que o apartamento é de vocês.
A ligação foi encerrada.
Por alguns segundos, Lais continuou parada, o celular ainda na mão, o olhar perdido no vazio da sala escura.
E então respirou.
Fundo.
Como se estivesse soltando algo que nem tinha percebido que estava segurando.
O peso diminuiu.
Só um pouco.
Mas o suficiente.
E começou a perceber que não estava sozinha.
Lais acordou com o som do despertador, abrindo os olhos devagar, ainda envolvida por uma sensação incomum de tranquilidade. Por alguns segundos, permaneceu deitada, olhando para o teto, tentando entender o que havia de diferente naquela manhã. E então percebeu. Ela tinha dormido a noite inteira. Sem interrupções. Sem pensamentos invadindo sua mente. Sem aquele peso constante no peito. Era raro. Tão raro que nem conseguia lembrar a última vez que tinha acontecido.
Virou o rosto, esticando o braço ao lado, mas a cama estava vazia.
Franziu a testa, estranhando.
Levantou-se devagar, ajeitando o cabelo enquanto saía do quarto e caminhava pelo apartamento silencioso. Foi o cheiro que a guiou até a cozinha.
Café.
Ela não disse mais nada.
Porque, no fundo… não havia um problema real.
Não havia um motivo concreto pra recusar.
Era só… medo.
Insegurança.
Coisas que nem ela mesma sabia explicar direito.
“Uma conversa resolve.”
As palavras das amigas vieram à mente quase automaticamente.
Talvez fosse simples assim.
Talvez ela estivesse complicando tudo.
Talvez estivesse na hora de parar de fugir.
Lais respirou fundo mais uma vez, sentindo a decisão se formar, clara, inevitável.
As duas propostas.
O trabalho.
E ele.
Ambas eram boas.
Boas demais para ignorar.
Um emprego na área que sempre quis.
Um salário alto.
Uma nova vida.
E, junto disso…
Heitor.
Bonito. Intenso. Confuso… mas real.
Sem cobranças.
Sem rótulos.
Sem complicação.
Ou pelo menos… era o que parecia.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela.
— Perfeito… — disse, ignorando o incômodo que ainda insistia em ficar.
E, naquele momento… ela decidiu.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Paguei e mesmo assim o capitulo não abre... :(...
Impossível de ler, vários capítulo não abrem só aparece o anúncio. Vou nem gastar dinheiro pq vou me arrepender...
Caraca vários capítulos não abrem. Muito ruim assim. mailto:[email protected]...
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...