"Camila"
Minha cabeça latejava quando coloquei o avental. Me recusei a chorar e a sofrer.
Mas, ainda assim, parecia que minha cabeça ia explodir.
— Aconteceu alguma coisa? — Nina perguntou, me encarando, um pouco preocupada.
Eu não tinha dormido direito e, pelo jeito, não havia maquiagem capaz de disfarçar a minha expressão de cansaço e as olheiras fundas.
— Não foi nada — respondi de forma evasiva e fui trabalhar.
César tinha voltado sem me falar nada. Eu ainda não acreditava nisso — ou melhor, acreditava. Era meio óbvio desde o início que aquela historinha de amor, de ir para algum lugar pensar na vida, era tudo besteira… e eu tinha caído direitinho.
Não queria falar nem com a minha prima. Meu celular acumulava ligações perdidas, mas eu não queria ver ninguém.
Andei de um lado para o outro atendendo, falando, servindo, no modo automático, recusando-me a pensar, a ceder ao sentimento de vergonha, decepção e mágoa que ameaçava me engolir.
Durante todo o dia, também senti uma ansiedade constante, porque, no fundo, uma parte contraditória de mim queria que César viesse me procurar, explicar tudo — mesmo sabendo que nenhuma explicação seria suficiente. Ainda assim, cada vez que um cliente chegava, eu esperava que fosse ele. O que só aumentava minha irritação, me deixando péssima.
— Ca, quer tirar uma pausa? Você já errou o pedido três vezes — Nina se aproximou, falando baixo.
— Não precisa — Tinha medo de ficar parada.
— Ca…
— Estou ótima. É só uma indisposição — respondi tentando forçar um sorriso.
Nina resmungou, mas não insistiu.
— Uau… você pode atender aquele cliente que acabou de chegar. Quem sabe não te anima — Ela falou me cutucando.
Por algum motivo, antes mesmo de me virar para a porta, eu já imaginava quem era.
César me olhava diretamente, sério. Ele estava bem diferente desde a última vez: barba maior e uma postura pesada, de homem preocupado — distante do homem de negócios com ar perdido que aparecia no bar para me observar preparar bebidas e experimentar minhas invenções sem álcool.
Meu coração traidor deu um salto e minhas mãos também. Derrubei a bandeja, fazendo uma enorme bagunça no meio do restaurante.
— Meu Deus, me desculpa, Nina! Eu vou limpar tudo! — falei, abaixando-me para juntar os pratos e copos quebrados.
— Para, Ca. Eu vou pegar uma vassoura e um pano, foi só um acidente — ela disse, saindo apressada.
Eu não conseguia levantar o olhar, tentando recolher os cacos e arrumar a bagunça.
— Camila, você se machucou? — a voz dele soou perto demais, preocupada.
— O que você está fazendo aqui?
— Me desculpa… eu precisava falar com você. Você não atende minhas ligações. Não é nada do que você está pensando… Meu Deus, você se cortou! Me dá essa bandeja aqui.
Ele se adiantou e tirou a bandeja da minha mão. Só então percebi que minha mão sangrava, eu tinha me cortado e nem tinha percebido, não era um corte fundo, mas começou a sangrar bastante.
— Camila… vai lá dentro lavar essa mão, tem um kit de primeiro socorros no banheiro embaixo da pia, pode deixar que limpo aqui. O senhor pode deixar a bandeja aí, muito obrigada pela ajuda — Nina voltou já varrendo os cacos, enquanto eu praticamente corri para o banheiro.
Passei pela cozinha. O sangue, o susto, a dor de cabeça piorando… e as lágrimas que eu lutava para conter já escorriam pelo meu rosto, me fazendo sentir ainda mais patética.
— Camila… me deixa ajudar — a voz dele novamente.
César tinha me seguido e estava do lado de fora do banheiro.
— Não temos nada para conversar. Não precisa me explicar nada.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido