Capítulo 23 — Uma Trégua no Tempo
Victoria Clark
O despertar veio em camadas, lento e preguiçoso, me arrastando para fora de um limbo de exaustão que parecia ter durado horas. Aos poucos, os meus sentidos foram retornando.
O primeiro estímulo foi a percepção de um peso sólido e reconfortante sobre o meu corpo, seguido pelo calor constante de uma respiração compassada batendo direto contra a curva do meu pescoço.
Quando finalmente abri os olhos, piscando contra a penumbra do quarto, meu coração deu um solavanco.
Adrian estava dormindo profundamente, aninhado a mim. Um de seus braços longos e pesados cruzava a minha cintura, me mantendo firmemente colada ao seu peito, enquanto uma de suas pernas estava jogada sobre as minhas, me prendendo em um abraço possessivo que eu não esperava encontrar.
No primeiro milésimo de segundo, o meu instinto de sobrevivência, aquele maldito mecanismo de defesa que eu vinha alimentando há anos, gritou para eu sair dali. Mandou que eu o empurrasse, que inventasse uma desculpa ácida e restabelecesse a distância segura entre nós.
Mas, pela primeira vez, eu decidi parar de me sabotar.
Prendi a respiração por um instante e apenas me entreguei ao momento. Olhei para o rosto dele, tão perto do meu. Dormindo, Adrian não parecia o CEO implacável que comandava uma holding multibilionária com punho de ferro; não parecia o homem arrogante que já me feriu tantas vezes com palavras duras.
Ele parecia apenas... humano. E lindo de um jeito que doía.
Com os movimentos mais lentos que consegui coordenar, ergui a minha mão direita. Meus dedos hesitaram por um segundo no ar antes de tocarem a sua pele. Comecei contornando a linha perfeita e bem desenhada de sua mandíbula, sentindo o arranhar rústico da barba por fazer que começava a despontar.
Subi pelas maçãs do rosto, desenhei a curva de suas sobrancelhas espessas e, por fim, meus dedos deslizaram até os seus lábios. Uma vontade quase incontrolável de beijá-lo me atingiu em cheio, fazendo meu estômago revirar em um misto de ansiedade e desejo.
Eu quis acordá-lo sentindo o gosto da sua boca. Mas contive o impulso, recolhendo os dedos. Não faça isso, Victoria, me repreendi em pensamento. Nós não éramos nada um do outro. Não tínhamos um relacionamento real para que eu me desse ao luxo de agir com tanta intimidade.
Desviei os olhos do rosto dele e olhei em direção à sacada. A porta de vidro estava entreaberta, deixando entrar o som suave do mar e a brisa fresca do anoitecer. A noite já havia caído completamente sobre San Diego. O céu do lado de fora ostentava um tom azul-escuro salpicado de estrelas.
O luau. O compromisso com o Will.
Eu precisava me arrumar, então decidi que era hora de sair da cama. Com o máximo de cuidado que pude reunir, segurei o braço de Adrian e tentei erguê-lo da minha cintura, deslizando o meu corpo para trás para escapar do seu aperto. Mas eu subestimei o controle dele, mesmo no subconsciente.
Antes que eu pudesse sequer apoiar os pés no chão, fui surpreendida por um puxão repentino. O braço forte de Adrian se fechou ao redor da minha cintura com precisão e me puxou de volta para o colchão em um único movimento fluido.
Minhas costas bateram direto contra o peito largo e quente dele, e um arrepio violento correu por toda a minha espinha quando senti seus lábios roçarem a minha orelha.
— Onde você pensa que vai? — ele sussurrou, a voz rouca pelo sono recente, enviando uma descarga elétrica direto para o meu baixo ventre.
Tentei estabilizar a minha respiração, que já havia ficado curta.
— Ao banheiro — respondi, tentando manter o tom de voz firme, embora tenha falhado miseravelmente. — Vou me arrumar para o luau. Preciso encontrar o Will e o namorado dele.
Em vez de me soltar, Adrian se aninhou ainda mais em mim, enterrando o rosto no meu cabelo e apertando o enlace na minha cintura.
— Ainda está cedo — ele murmurou contra os meus fios. — Eu me informei com a recepção. O luau na praia só começa às 21h. Ainda são 20h. Nós temos tempo.
Meu coração acelerou contra as minhas costelas, batendo tão forte que tive certeza de que ele conseguia ouvir.
— Tempo para quê, Adrian? — perguntei.
Usando a pouca liberdade de movimento que eu tinha, girei o meu corpo dentro do aperto dele, ficando de frente para ele. Nossos rostos ficaram a centímetros de distância.

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