Capítulo 28 — O Dono do Jogo
Adrian Foley
Cruzar a soleira da minha própria cobertura tinha sido como bater de frente com um muro de gelo que eu mesmo havia ajudado a construir. No fundo, a minha vontade real era ter desfeito toda aquela formalidade estúpida, puxado Victoria para os meus braços e a convidado para tomarmos um banho juntos, antes de dividirmos a mesma cama como havíamos feito na nossa última noite em San Diego.
Mas eu me contive. Minhas defesas me obrigaram a recuar. Eu ainda não sabia se estávamos exatamente na mesma página e decidi que tentaria ao máximo manter os termos estritos do contrato até que eu conseguisse entender o turbilhão de sentimentos que aquela garota estava despertando dentro de mim.
Fui para o meu quarto e fiz tudo de forma mecânica. Tomei um banho rápido, passei os olhos por alguns e-mails urgentes da holding e me deitei. Dormir, no entanto, provou-se uma tortura sem fim.
Me virei de um lado para o outro nos lençóis, sentindo a falta do calor do corpo dela e do aroma doce do seu cabelo. Quando o despertador tocou, pontualmente às cinco da manhã, a sensação era de que eu sequer havia pregado o olho.
Segui a minha rotina à risca e desci para a academia do prédio. Era isso o que me mantinha sempre focado nos meus objetivos: a disciplina e a constância da minha rotina. Eu não podia, e não iria, mudar isso por conta de uma distração, por mais tentadora que ela fosse.
Quando retornei para a cobertura, tomei banho, vesti um dos meus ternos sob medida e segui para a sala de jantar para o café da manhã. No instante em que passei pela porta do quarto de hóspedes onde Victoria estava instalada, uma vontade absurda e irracional de vê-la me tomou de assalto.
Eu precisava saber se a noite dela havia sido tão terrivelmente ruim quanto a minha. Ajeitei os punhos da camisa, dei duas batidas firmes na madeira e não obtive resposta. Imaginei que ela ainda estivesse dormindo, mas girei a maçaneta assim mesmo, empurrando a porta devagar.
No segundo em que passei pelo batente, o perfume dela me atingiu em cheio. Olhei para a cama e notei, com o cenho franzido, que a colcha estava perfeitamente esticada, arrumada como se mal tivesse sido tocada durante a noite.
— Victoria? — chamei, mas o silêncio foi a única resposta.
Fui até o banheiro, espiei o closet e nada. Olhei para o relógio de pulso e vi que já passava das 7h15 da manhã.
— Onde você foi uma hora dessas? — murmurei para mim mesmo, sentindo uma pontada imediata de irritação ao pensar que ela havia saído sem nem se dar ao trabalho de falar comigo.
Saí do quarto a passos largos e segui pelo corredor em direção à sala de jantar. Antes mesmo de cruzar o portal, o som de uma risada gostosa e melodiosa, aquela mesma risada que eu vinha aprendendo a gostar cada vez mais, flutuou pelo ar.
Um alívio absurdo desceu pelo meu peito, acompanhado por um pensamento rápido: ela só veio tomar café comigo.
Adotei a minha habitual postura de indiferença e entrei no ambiente. Victoria estava de pé ao lado de Vera, a governanta da casa, e as duas conversavam e riam alto como se fossem melhores amigas de infância.
— Bom dia — minha voz cortou a atmosfera descontraída, chamando a atenção de ambas.
Meus olhos varreram o corpo de Victoria no mesmo instante. Ela vestia uma calça jeans escura e uma blusa simples, mas ambas as peças eram coladas até demais ao seu corpo, delineando cada curva com uma precisão perigosa.
A roupa era comum, mas nela, tornava-se um espetáculo aos olhos de qualquer homem de sangue quente.
Victoria virou-se para mim e sustentou um sorriso leve.
— Bom dia, senhor Foley.
Caminhei na direção dela, tomado por um desejo estúpido e avassalador de tocá-la. Sem pensar duas vezes, espalmei a mão na sua cintura, a puxando sutilmente para perto, e depositei um beijo rápido na sua têmpora.
Pude sentir pelo leve sobressalto do seu corpo que o gesto a pegou totalmente de surpresa. Mas eu me mantive ali por alguns segundos. Se ela questionasse a minha ousadia mais tarde, eu usaria a desculpa de que precisávamos manter as aparências na frente de Vera, que era uma informante fiel do meu avô.
Não precisava admitir que eu estava apenas desesperado por um milímetro de contato.
Assim que me afastei, puxei a cadeira para ela e comentei:
— Passei no seu quarto e vi que você não estava lá.
Ela me olhou surpresa novamente enquanto se acomodava à mesa.
— Eu ouvi quando você chegou da academia, Adrian. Mas pensei em encontrá-lo direto aqui no café para não atrapalhar a sua preciosa rotina.
Vera, captando a eletricidade sutil e a intimidade da nossa interação, pediu licença educadamente e se retirou, nos deixando sozinhos. Me sentei na ponta da mesa, bem ao lado de Victoria, me servindo de um pouco de café preto.
— Poderia ter ido ao meu quarto, eu não ia me importar — respondi, fixando meus olhos nos dela. — Mas por que acordou tão cedo?
Ela abriu um daqueles sorrisos empolgados e genuínos que faziam seus olhos brilharem.

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