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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 609

~ BIANCA ~

Era Christian parado na porta da minha sala.

Mia foi a primeira a notar. Ela se levantou da cadeira como se tivesse levado um choque, cumprimentou nosso primo com um abraço rápido e, antes mesmo que eu pudesse processar o que estava acontecendo, já estava pegando o próprio celular e a bolsa.

— Eu… acabei de lembrar que tenho um call com o jurídico — ela anunciou, teatral. — Tipo… agora.

Passou por ele, fez uma careta dramática e, com os lábios, articulou bem devagar: o homem tá bravo.

É claro que ele estava bravo.

Pra ele sair do Brasil, atravessar o oceano e vir falar comigo pessoalmente, é claro que ele estava bravo.

Merda.

Christian fechou a porta atrás dele, e só então se virou completamente pra mim.

— Eu só te pedi uma coisa — ele começou, sem rodeios. A voz baixa, controlada, era pior do que qualquer grito. — Uma. Não misturar os seus negócios pessoais com a Bellucci. Você sabe que isso sempre dá merda, Bianca.

Cruzei os braços, mais pra não demonstrar que minhas mãos estavam tremendo do que por desafio.

— Ia dar mais merda se eu tivesse usado o meu nome — respondi, tentando soar razoável. — Pelo menos assim…

— Pelo menos assim você arrastou o grupo inteiro com você — ele me cortou. Deu dois passos pra dentro, jogou uma pasta grossa em cima da minha mesa. O logotipo da VBG Holdings me encarou de volta como se fosse cúmplice. — Se você quer brincar de salvadora de fazendeiro falido, ótimo. É problema seu. Mas você não torrou o seu dinheiro, Bianca. Você usou uma holding da Bellucci.

Engoli em seco.

— Eu falei que ia repor o dinheiro do meu bolso — lembrei. — A Bellucci não vai sair no prejuízo. Assim que a operação estiver estruturada, eu posso…

Christian riu. Não foi um riso de humor. Foi um riso curto, descrente, que me deu vontade de enfiar a cabeça na gaveta e fechar.

— Você acha mesmo que isso se resolve com uma transferência? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha. — “Desculpa, conselho, eu só assinei um negócio de 2,3 milhões de euros no impulso, mas relaxa que depois eu transfiro”? Você assinou por uma holding que existe justamente pra zelar pelos investimentos estratégicos do grupo, e fez isso sem passar por conselho, sem passar por jurídico, sem passar por ninguém. Isso fica no balanço, Bianca. Isso fica na ata. Isso aparece no relatório da auditoria, nas reuniões com banco, em tudo.

Ele abriu a pasta, tirou algumas folhas e deslizou na minha direção.

Dezessete contratos. Dezessete pessoas que, oficialmente, agora deviam pra nós.

— Agora a Bellucci está dona de um portfólio de créditos problemáticos — ele continuou. — Sabe como os bancos veem isso? Como risco. Sabe como as agências de rating veem isso? Como aumento de exposição a devedores duvidosos. Sabe como a imprensa poderia ver isso, se alguém resolver abrir o bico? — Ele ergueu os olhos, prendendo os meus. — Como manchete.

Revirei os olhos, mais por defesa do que por descrédito.

— Você está exagerando.

— Ah, estou? — Ele apoiou as mãos na mesa, inclinando-se na minha direção. — Vamos brincar de jornal? Eu começo. “Grupo Bellucci compra dívidas de famílias endividadas com desconto para lucrar em cima da cobrança”. Ou talvez: “Herdeira da Bellucci usa holding da família para salvar fazendeiro com quem está envolvida”. Qual você acha que rende mais clique?

Senti o rosto queimar.

— Não foi por… — mordi a língua antes de falar “estar envolvida”. Respirei fundo. — Foi um bom negócio.

— Mesmo que fosse o melhor negócio da década, ainda assim teria que ser aprovado, Bianca. — Ele afastou as folhas com um gesto impaciente. — Você criou sozinha um conflito de interesse gigantesco.

Afundei na cadeira.

— Eu fiz o que precisava ser feito — murmurei. — Se aquele pacote fosse pra mãos erradas, ele ia perder tudo. A fazenda, a casa, o emprego de muitas famílias. Você sabe como esses fundos trabalham. Você sabe que…

— Eu sei — ele me interrompeu, mais suave, mas nem um pouco menos firme. — E é exatamente por saber que eu teria encontrado outra forma. Uma que não envolvesse você saindo correndo de Florença pra assinar cessão de crédito em agência de banco de interior como se fosse cena de filme.

Ele suspirou, se endireitou e passou a mão no cabelo, aquele gesto típico de quando estava tentando se controlar.

— Agora eu vou ter que mandar analisar uma por uma dessas dívidas — ele continuou. — Ver quem são essas pessoas, qual a situação real, se vale a pena cobrar, renegociar, perdoar, executar. E você sabe o que acontece se, no meio disso tudo, vazar que a Bellucci está executando a terra de um agricultor quebrado enquanto vende vinho de cem euros a garrafa?

Eu sabia. Imaginei protestos, hashtags, threads indignadas. Boicote à Bellucci. Consumidores quebrando garrafa em vídeo.

Antes que eu pudesse decidir, ouvi um arranhar de garganta discreto vindo da porta.

Virei na mesma hora.

Zoey estava encostada no batente, expressão ofendida e divertida ao mesmo tempo, como se estivesse ali há tempo suficiente para ouvir mais do que deveria.

— Pois eu me apaixono pelos meus — ela declarou, entrando na sala com aquele andar de quem aprendeu a nunca pedir desculpa por existir. — Ou melhor… pelo meu. Desde que comprei um certo gigolô.

Um riso escapou de mim antes que eu pudesse segurar. A tensão no ar rachou, pelo menos do meu lado.

Zoey veio direto até mim e se inclinou, depositando um beijinho rápido na minha bochecha.

— Oi, cunhada.

Senti Christian revirar os olhos atrás dela, mas quando ele falou, o tom já tinha menos ferro e mais afeto.

— Zoey… — ele começou, num aviso manso. — Isso não é uma questão pessoal.

— Mas é sim — ela retrucou, virando-se para ele com as mãos na cintura. — Porque vocês são irmãos. E vão parar de brigar agora. Eu sou mãe, tô acostumada a colocar gente de castigo. Querem cada um se sentar em um canto da sala olhando para a parede?

O choque de ver o CEO da Bellucci e a COO da Bellucci Itália reduzidos a duas crianças repreendidas foi tão ridículo que até Christian não aguentou.

Ele riu. Um riso de verdade, que desarmou metade da minha culpa.

— Eu vou ter que trancar essa mulher em casa quando sair para uma reunião — ele disse, olhando pra mim mas apontando o queixo na direção dela. — Ou ela ainda acaba com a minha reputação.

Zoey deu de ombros, se aproximou dele e subiu na ponta dos pés para depositar um beijo no pescoço, que ela sabia que fazia ele derreter.

Depois se virou pra mim, os olhos brilhando.

— Então… — disse, como se nada demais tivesse acontecido ali dentro — Mia estava falando sobre um jantar...?

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