Entrar Via

Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 636

~ BIANCA ~

— Não.

A palavra saiu antes mesmo de eu perceber que tinha decidido. Seca. Do tipo que não dá espaço pra negociação.

Renata piscou, como se não tivesse ouvido direito.

— O quê?

Levantei da cadeira. Senti minhas próprias mãos tremerem, mas a voz saiu firme.

— Eu disse não. Não vou pagar um centavo para você. Não vou ceder a essa chantagem patética.

Apontei para a porta.

— Sai daqui. Agora.

Ela riu. Aquele riso irritante, elástico, que sempre pareceu mais uma provocação do que qualquer coisa engraçada.

— Você vai se arrepender…

— SAI DAQUI! — gritei, mais alto do que pretendia. — AGORA!

Minha voz ecoou pela sala, batendo nas paredes de vidro e voltando pra mim. Por um segundo, até eu me assustei comigo mesma.

Renata se levantou com toda a calma do mundo, como se estivesse saindo de um café, não de uma tentativa de extorsão. Pegou a bolsa, ajeitou a alça no ombro.

— Tudo bem — disse, caminhando em direção à porta.

Já na moldura, virou-se de novo. Os olhos vazios de qualquer resquício de vergonha.

— Vai pagar por isso, Bianca — disse, fria. — Se não quer pagar com dinheiro, vai pagar de outra forma.

E saiu.

A porta se fechou atrás dela com um clique suave.

Fiquei ali parada. Um segundo. Dois. Três.

Então o corpo finalmente reagiu.

Peguei o celular na mesa com a sensação de que, se demorasse mais um minuto, alguma coisa irreversível ia acontecer. Não era mais sobre mim. Não era mais sobre a fazenda, sobre a dívida, sobre mentiras ou segredos.

Era sobre a Bella.

Sobre uma mãe completamente sem escrúpulos disposta a usar a própria filha como moeda de troca num tabuleiro de xadrez doentio.

Eu precisava falar com o Nico. Agora.

Disquei o número dele com dedos trêmulos.

Tocou.

Tocou.

Tocou.

Caixa postal.

— Merda — murmurei, já ligando de novo.

Segunda tentativa.

Tocou.

Tocou.

De novo, caixa postal.

Terceira.

O mesmo.

Ele não estava atendendo.

Fechei os olhos por um segundo, respirei fundo, apertei o botão para gravar áudio.

— Nico — comecei, tentando manter a voz estável e falhando um pouco — a gente precisa conversar. É importante. Muito importante. Não ouve nada do que a sua ex tentar te contar, tá? Nada. Eu preciso falar com você primeiro. Eu tô indo pra aí agora.

Enviei antes que pudesse reconsiderar cada palavra.

Peguei minha bolsa, meu casaco, e saí da sala praticamente correndo.

— Cancela todas as minhas reuniões de hoje — falei para minha assistente ao passar. — Todas. Emergência familiar.

Ela arregalou os olhos.

— Aconteceu al...

— Depois eu explico — cortei, entrando no elevador.

As portas se fecharam. A imagem da Renata, parada na porta da minha sala, repetindo “vai pagar de outra forma”, voltou como um flash.

Tentei empurrar o medo pro fundo. Agora não era hora de tremer. Era hora de agir.

Desci para a garagem, entrei no Audi, liguei o motor numa sequência automática que o meu corpo já conhecia de cor.

Saí em disparada.

Florença passou em borrão pelas janelas. Ruas, semáforos, turistas atravessando devagar demais, motos surgindo de todos os lados. Eu sabia que não devia dirigir daquele jeito, mas estava desesperada.

Tentei ligar para o Nico mais uma vez, com o viva-voz.

Nada.

O áudio tinha que ser suficiente, por enquanto.

Peguei a estrada que levava a Montepulciano. O asfalto se abriu à frente, a cidade ficando pra trás. Campo. Colinas. Placas ocasionais.

Acelerei um pouco mais. O velocímetro subindo.

100... 110...120...

Minhas mãos apertadas no volante, nós dos dedos quase brancos. A mandíbula travada.

“Só preciso falar com ele antes”, repeti mentalmente. “Só preciso falar antes.”

Eu estava há uns vinte minutos de Florença quando vi um carro mais lento à frente. Mudei de faixa para ultrapassar. Movimento normal. Feito mil vezes antes.

Sinalizei, olhei pelo retrovisor, joguei o carro para a esquerda.

Estava no meio da ultrapassagem quando o outro carro acelerou bruscamente.

Franzi a testa.

Apertei mais o pedal, tentando concluir a manobra logo. O carro à frente acelerou junto, como se estivesse brincando de me impedir de passar.

— Que merda… — sussurrei, irritada.

Tentei recuar para a faixa da direita, mas já estava comprometida demais. O carro estava exatamente ao meu lado, me bloqueando. Uma dança estranha, perigosa, que não fazia sentido nenhum.

Foi quando olhei para o lado.

E vi.

O carro parou.

Não sabia em que posição. Tudo parecia deslocado. Inclinado.

Tentei me mexer.

Meu corpo não respondeu como eu queria. Tudo pesava. Tudo doía.

Abri os olhos com esforço. A visão estava embaçada, manchada de vermelho.

Sangue.

Escorrendo pela testa, pelo nariz, pela lateral do rosto. Ardeu quando tentei piscar.

Levei a mão ao cinto de segurança. Os dedos trêmulos tropeçaram na fivela, escorregando.

— Socorro — tentei chamar.

Saiu só um sopro, rouco. Quase nada.

Ouvi vozes.

Distantes, como se viessem debaixo d’água. Alguém gritando mais adiante. Passos correndo.

Tentei responder. Tentei gritar que eu estava ali, que precisava de ajuda, que não podia perder tempo, que precisava chegar até o Nico antes da Renata.

Nada.

A dor parecia, ao mesmo tempo, aumentar e se dissolver. Como se o corpo estivesse desligando um interruptor por vez.

Tudo começou a ficar mais longe.

Mais escuro.

Como se eu estivesse afundando em alguma coisa espessa, pesada.

Pensei no áudio.

No Nico ouvindo minha voz dizendo “não ouve nada que a sua ex tentar te contar”.

Pensei nele entendendo, tarde demais, que eu estava indo até ele. Que eu tinha tentado chegar primeiro. Tinha tentado consertar.

Renata passou pela minha cabeça de novo.

Ela tinha parado? Tinha voltado? Tinha continuado em frente, reta, como se nada tivesse acontecido, indo direto pra Tenuta com a história que queria contar?

Tentei me mexer de novo. Só mais um movimento. Só abrir a porta. Só alcançar o celular. Só… qualquer coisa.

Nada.

O escuro veio chegando pelas bordas da visão, engolindo tudo devagar.

Bella.

A imagem dela me veio tão nítida que doeu mais do que qualquer impacto. O riso, os olhos grandes, as mãos manchadas de farinha quando ajudava na cozinha.

Nico.

O jeito como ele me olhava na cozinha da Tenuta, como se eu fosse a coisa mais improvável e mais certa que já tinha acontecido na vida dele.

Desculpa.

A palavra passou pela minha mente antes de conseguir chegar à boca.

E então não teve mais pensamento nenhum.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )