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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 655

~ BIANCA ~

Nos dias que se seguiram ao encontro na gelateria, algo mudou.

Não de forma dramática. Não com discussão ou palavras duras.

Mas mudou.

Sutil. Gradual. Como uma camada fina de gelo se formando por cima de algo que antes corria livre.

Nico começou a dormir no sofá.

— Bella e Martina estão no quarto de hóspedes — explicou na primeira noite, pegando um travesseiro extra no armário. — E vou ficar assistindo uns documentários sobre vinicultura até tarde. Não quero te acordar com barulho da TV.

Fazia sentido. Era até cuidadoso.

Então não questionei.

Mas na segunda noite ele repetiu a mesma justificativa, com a mesma naturalidade. Na terceira também. Na quarta.

E, quando eu percebi, tinha passado uma semana inteira sem ele dormir na nossa cama.

A cama ficou grande demais.

Comecei a acordar sozinha todas as manhãs.

Nico já tinha saído. Sempre cedo. Sempre antes do sol nascer completamente.

— Preciso chegar na Tenuta cedo — dizia quando eu perguntava por mensagem. — A empreiteira começa às sete, quero supervisionar pessoalmente.

Razoável. Responsável. A reconstrução era importante.

Só que significava que não tomávamos mais café juntos. Não existiam mais aqueles primeiros minutos preguiçosos do dia, com Bella narrando o mundo e Nico me roubando uma fruta do prato como se isso fosse um ritual.

Quando ele voltava à noite, chegava tarde.

— Dia longo — murmurava, largando as chaves na mesinha da entrada. — Estou exausto.

E estava, visivelmente. Sujo de poeira da obra, com aquele cansaço nos olhos que não era só físico. Ombros tensos. A boca sempre em uma linha reta, como se sorrir gastasse energia demais.

Jantávamos juntos porque Bella insistia. Porque Martina preparava comida e chamava todo mundo.

Mas eram jantares silenciosos. Educados. Práticos.

Nico respondia perguntas sobre o dia dele com monossílabos. Perguntava sobre o meu trabalho sem realmente acompanhar a resposta.

E quando eu tentava tocar nele — mão no braço, dedos roçando os dele ao passar o sal — ele se desviava.

Não óbvio. Não rude.

Apenas… se movia.

Levantava para buscar água. Pegava algo que “tinha esquecido”. Ia ver se Bella tinha terminado o prato. Perguntava para Martina se ela precisava de alguma coisa.

Sempre uma razão plausível.

Nossas conversas se limitaram a logística.

“Bella tem dentista terça.”

“Certo, eu levo.”

“Martina quer saber se pode usar a cozinha para fazer pão.”

“Claro.”

“Christian mandou documentos para você assinar.”

“Vou ver amanhã.”

Eficiente. Funcional. Vazio.

O que mais me machucava era que, com Bella, ele continuava exatamente o mesmo.

Brincava com ela na piscina por horas. Ria alto das piadas bobas. Ajudava com dever de casa com paciência. Lia histórias antes de dormir com vozes engraçadas que a faziam gargalhar.

Pai amoroso e presente.

Com Martina era gentil e atencioso. Agradecia pelas refeições. Conversava sobre a Tenuta com carinho e respeito.

Só comigo ele tinha construído um muro.

Levei dias para admitir que não era apenas estresse. Não era só cansaço da reconstrução.

Era uma escolha deliberada de manter distância emocional.

De mim.

Na décima noite, eu não aguentei mais.

— Nico — chamei quando ele começou a se levantar da mesa após o jantar. — Podemos conversar?

Zoey me ouviu em silêncio, tomando café, assentindo de vez em quando. Sem interromper. Sem tentar consertar antes da hora.

Quando terminei, ela soltou um suspiro longo.

— Ele está com medo — diagnosticou.

— Medo de quê?

— De te perder — ela respondeu, direta. — De te arrastar para o buraco financeiro dele. De virar uma âncora no seu pescoço. De Renata conseguir sangrar você através dele.

Eu apertei a xícara com força demais. O calor não fazia diferença.

Zoey continuou, escolhendo as palavras com mais cuidado do que o normal.

— Homens fazem isso. Quando se sentem impotentes. Quando acham que estão causando dano, eles criam distância. Acham que, se se afastarem, estão protegendo. Acham que, se não se permitirem… vai doer menos.

— Mas eu não vou abandoná-lo — protestei, com a garganta apertando. — Nunca faria isso.

— Ele sabe disso racionalmente — Zoey concordou. — Mas emocionalmente ele não está agindo com lógica. Ele está vendo Renata ameaçar você por causa dele. Está vendo que ele virou o ponto fraco que ela tenta usar.

Pausou.

— Então ele se afasta porque, na cabeça dele, isso é “proteção”. Ele acha que, se criar distância, você não vai se envolver tanto. Não vai se comprometer tanto. E, se você resolver ir embora, vai ser mais fácil. Menos… destrutivo.

Senti lágrimas queimando, de raiva e de tristeza ao mesmo tempo.

— Isso é ridículo — murmurei.

— É — Zoey concordou. — E também é humano. E é medo.

Ficamos em silêncio por um momento, só o som da máquina de café e gente passando do lado de fora.

— O que eu faço? — perguntei por fim.

Zoey inclinou o corpo para frente, como se estivesse falando de uma negociação.

— Você enfrenta — respondeu, firme. — Você não deixa ele se esconder atrás de “cansaço” e “trabalho”. Você não aceita a fuga como se fosse normal.

— E se ele continuar empurrando para longe?

Zoey deu um meio sorriso, aquele que sempre aparecia quando ela decidia virar a mesa.

— Então você puxa de volta mais forte.

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