Semanas atrás
Para Milena, a partida começou antes do avião decolar. Começou no momento em que ela entrou no carro e não olhou para trás.
Foram longas horas até o aeroporto. Ninguém ligou o rádio, as crianças alternavam entre choro baixo e sono inquieto. Álvaro mantinha os olhos atentos pela janela, Lívia organizava bolsas, mamadeiras, cobertas.
Milena dirigia, as mãos firmes no volante, o olhar fixo na estrada. Em completo silêncio.
— Você quer que eu dirija um pouco? — Lívia perguntou em certo momento.
— Não.
A resposta saiu automática, parecia que ali atrás do volante ela tinha controle da sua vida.
No aeroporto, o dinheiro trocou de mãos rápido demais. Um intermediário, olhar neutro, poucas perguntas.
— Não se preocupe, não haverá registro com esses nomes. Será como vocês nunca colocaram os pés aqui.
Ela assentiu e pagou sem se importar quão caro ficou.
Dentro do avião, o silêncio parecia mais alto. Quando a aeronave ganhou altitude, Milena fechou os olhos por alguns segundos. Não queria dormir. Apenas tentou não lembrar. Mas era impossível não pensar.
Sua atenção voltou quando Mason acordou inquieto. Leon veio logo depois. Dominic e Vallentina choraram quase juntos. Lívia se inclinou entre os assentos, prática, calma.
— Eu pego esse aqui príncipe. — ela disse, alcançando Dominic.
Álvaro, mesmo limitado aos movimentos, segurava Vallentina com cuidado absoluto.
— Está tudo bem, pequena… está tudo bem, mamãe sabe o que está fazendo.
Milena observava cada rosto, cada detalhe, e doeu quando seu coração deu conta que os filhos estavam ali ao seu lado, mas Marcelo não. Ela virou o rosto para a janela antes que alguém percebesse os olhos marejados.
— Pode chorar, filha. Não há nada de errado em chorar.— Álvaro disse em voz baixa e calma.
— Eu estou bem, pai.— foi tudo que conseguiu pronunciar.
Quando o avião pousou Milena pegou Mason e Leon nos braços. O peso deles trouxe uma sensação estranha de realidade. Lívia empurrava a cadeira de Álvaro, que segurava Dominic e Vallentina com firmeza.
O aeroporto era grande e frio demais, pessoas passavam apressadas, sorrindo e conversando, outros calado com seus próprios problemas. Ninguém ali sabia quem ela era e isso de alguma forma trouxe um pouco de alívio.
O carro alugado foi pago em dinheiro, não iria usar o cartão pois sabia que Marcelo a encontraria facilmente. Durante o trajeto até o centro da cidade, Milena manteve o olhar perdido nos prédios que passavam. Tudo parecia tão distante, tão assustador.
— Você está bem, minha filha? — Álvaro perguntou.
Ela demorou a responder.
— Sim, pai.
Não era exatamente uma resposta, era hábito.
O tempo que Milena esteve com Marcelo fez ela mudar, havia se tornado mais forte, mais decidida, mas Álvaro sabia que a menina que se desdobrava para sustentar a casa estava ali, nas lágrimas nos cantos dos olhos, nos lábios e mãos tremendo.
Lívia a observava em silêncio. Sabia que qualquer palavra errada poderia quebrar o pouco equilíbrio que ainda existia.
— Quanto dinheiro ainda tem, amiga?— perguntou Lívia.

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