A atendente sorriu e escreveu o nome no copo. Poucos minutos depois, chamou:
— Mila.
Milena pegou o café e voltou para a mesa no canto, de onde podia ver a rua pela janela. O lugar era simples. Poucas mesas. Conversas baixas.
Ela segurava o copo quente entre as mãos, mas não bebia. O vapor subia devagar. Ela acompanhava com o olhar, como se aquilo exigisse toda a sua atenção.
Até que a televisão presa no alto da parede chamou a atenção de parte das pessoas no local. O volume estava baixo, mas as legendas corriam na parte inferior da tela.
“Empresária investigada por abuso e corrupção morre em incêndio suspeito.”
A imagem de Sabrina em eventos beneficentes apareceu repetidamente. Vestidos discretos. Sorrisos ensaiados. Crianças ao redor.
Milena não piscou, mas o coração bateu mais forte.
A reportagem continuou.
“Fontes confirmam que o processo corria sob sigilo absoluto. A identidade da vítima foi preservada. Após a denúncia inicial, outras vítimas foram localizadas. O caso mais recente envolve um menino de dez anos.”
O café tremeu levemente entre os dedos dela.
“A empresária foi encontrada carbonizada em uma propriedade rural do ex marido da acusada. A causa oficial é acidente elétrico.”
Milena apertou o copo com mais força. Ela conhecia Sabrina, sabia que aquilo não era simples assim. Que essa morte não passava de uma mentira mal contada.
O repórter prosseguiu:
“O escândalo teve desdobramentos em outros círculos da alta sociedade. A empresária Kethelyn Bettencourt que mantinha contato frequente com Sabrina, está sendo investigada por tentativa de homicídio e fraudes em contratos hospitalares, foi presa preventivamente na manhã de hoje. As empresas da família tiveram bens bloqueados e a residência principal está sob investigação. Especialistas afirmam que os casos não estão formalmente ligados, mas ambos surgiram após denúncias recentes envolvendo o mesmo núcleo social.”
O silêncio da cafeteria foi quebrado. Algumas pessoas comentaram baixo.
— Nunca imaginei. Sempre aparecia ajudando crianças.
— Pois é. Dinheiro compra silêncio, não caráter.
— E aquela Bettencourt? Saiu que perdeu tudo. A irmã dela é atriz… a família até se mudou.
Milena ouviu tudo sem reação, nenhum músculo do rosto se moveu. Ela colocou o copo sobre a mesa, deixou o dinheiro, levantou e saiu sem olhar novamente para a televisão.
Naquela noite, as luzes foram apagadas cedo, as crianças dormiram rápido, o apartamento mergulhou no escuro.
Milena ficou deitada, olhando para o teto, o vazio do dia inteiro começou a rachar. A imagem dele veio sem pedir permissão.
O jeito como segurava os bebês, a voz chamando por ela, o olhar que sempre parecia enxergar além das palavras.
Ela virou de lado, abraçando o travesseiro. As lágrimas começaram silenciosas, nenhum soluço, nenhum barulho. Só o rosto molhado.
Ela não tinha abandonado apenas Marcelo. Tinha deixado uma parte dela. A parte que acreditava que podia ser feliz sem medo.
As lágrimas escorriam devagar, quentes. Ela levou a mão à boca para conter qualquer som.
Depois de alguns minutos, abriu os olhos e olhou para os quatro pequenos adormecidos.
— Eu vou proteger vocês. — sussurrou.
No dia seguinte, começou a procurar trabalho. Sem documentos oficiais. Sem registro. Sem histórico. O dinheiro restante diminuía rápido demais.
Ela tentou lojas pequenas, mercados de bairro, padarias. A resposta era sempre a mesma:

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