Meses se passaram e dentro de Marcelo, tudo estava em ruínas. Para se manter em pé, ele fez o que sempre soube fazer quando algo o dilacerava. Trabalhou até não sentir. Dormia quatro horas por noite. Às vezes menos. Virava um plantão e outro como se o próprio corpo fosse descartável.
Numa terça-feira qualquer, ele saiu do hospital às três da manhã depois de uma cirurgia de emergência que durou quase seis horas. O residente insistiu:
— Doutor, o senhor já está há vinte horas acordado…
— Termine o fechamento! — cortou Marcelo, seco. — Eu volto em quarenta minutos.
Naquela noite ele não voltou para casa. Foi direto para o prédio administrativo do hospital. Sentou na sala de reuniões vazia, abriu o notebook e começou a revisar relatórios financeiros como se aquilo fosse tão urgente quanto salvar uma vida.
Às seis da manhã, já estava de pé novamente, tomando café preto, frio, sem açúcar. Às oito, iniciou outra cirurgia.
Os enfermeiros comentavam em voz baixa.
— Ele não para.
— Parece que desde que Milena o abandonou, o doutor não sente mais nada.
E era exatamente isso que ele queria aparentar. A máscara que ele havia abandonado voltou. O homem frio. Intocável. Inatingível, com a mesma postura rígida. O mesmo olhar que não revelava emoção. O mesmo tom que não permitia aproximação. Mas agora era pior. Porque antes aquela frieza era defesa. Agora era punição para si mesmo.
No escritório central do grupo De Valliére, Marcelo assumiu ainda mais controle. Reuniões intermináveis. Decisões rápidas. Nenhuma tolerância a erros. Em uma delas, um diretor tentou questionar um corte de investimentos.
— Talvez possamos reavaliar essa estratégia…
Marcelo levantou os olhos lentamente.
— Você está sugerindo que eu não sei o que estou fazendo?
O silêncio caiu como um peso.
— N-não, senhor.
— Ótimo. Então execute.
Quando a reunião terminou, Alan entrou na sala com cautela.
— Você precisa diminuir o ritmo. As pessoas não tem culpa do que está acontecendo.
Marcelo nem ergueu o olhar.
— Eu estou ótimo. E se eles tiverem alguma reclamação, é só passar no Recursos Humanos.
Alan soltou uma respiração impaciente.
— Você está se afundando, Marcelo.
Marcelo fechou o notebook com força.
— Eu não tenho tempo para terapia motivacional, Alan, hoje não.
Não era só para Marcelo que as coisas estavam difíceis. Olavo não aguentou a ausência dos bisnetos. Ele até tentou acreditar que Milena estava protegendo os pequenos. Mas meses sem notícia alguma o consumiram. A pressão disparou pela manhã, foi encontrado caído na sala da sua mansão. Infarto leve. Foi internado às pressas.
Quando Marcelo recebeu a notícia, estava no meio de uma reunião estratégica. Ficou alguns segundos em silêncio, o telefone ainda encostado no ouvido.
— Estou indo.
No hospital, manteve a postura profissional. Conversou com o cardiologista. Autorizou procedimentos. Pagou qualquer despesa necessária.
Olavo acordou horas depois. O olhar do velho procurou por Milena.
— Alguma notícia?
Marcelo hesitou por uma fração de segundo.
— Não.
A decepção nos olhos do avô foi quase insuportável.
— Ela achou que era o único jeito de proteger vocês...— murmurou Olavo.— Não a culpe.
Marcelo apenas assentiu. Por dentro, algo queimava. Era raiva, era impotência, o abandono. Tudo se misturava dentro dele.
Naquela mesma tarde, na mansão, Augusto De Valliére, pai de Marcelo, observava o filho entrar com preocupação misturada com estratégia.
— Você está afastando investidores. — comentou, durante o jantar.

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