A imagem de Milena apareceu por um segundo no canto da tela, Marcelo sentiu o peito arder ao perceber que ela está mais magra.
— Tchau, papai… nós te amamos. — Milena sussurrou junto com as crianças.
O vídeo terminou. A tela ficou preta, mas Marcelo continuou olhando como se pudesse arrancar mais alguns segundos dali.
O tic-tac do relógio na parede começou a incomodar. Alto demais. Insuportável. A mão dele tremia segurando o celular. A barba estava por fazer, os olhos fundos, vermelhos. Ele piscou uma vez. Depois outra. Não adiantou. O ar faltou. As lágrimas desceram sem controle. Um soluço escapou antes que ele pudesse impedir. Ele levou a mão ao peito, apertando a camisa como se pudesse impedir o coração de se partir ali mesmo.
Alan sabia que Marcelo não estava bem. Mais uma vez foi até o escritório dele, abriu a porta sem bater, fazia isso ultimamente. Parou no meio da sala e viu que Marcelo estava curvado na cadeira, os ombros tensos.
— Marcelo...
Ele se aproximou devagar. Não era só tristeza. Era exaustão. O amigo estava no limite.
Do celular ainda vinha um eco fraco da voz infantil.
— ...esses são...
Marcelo levantou o rosto. Demorou um segundo para focar.
— Meus filhos, Alan.
A voz saiu rouca. Desgastada. Ele passou a mão pelo rosto, mas as lágrimas continuavam.
— Milena mandou um vídeo. Olha como eles estão grandes… Dominic e Mason estão andando. Valentina e Leon estão falando sem parar… — a voz falhou. — E eu não estou lá, eu não posso acompanhar isso de perto.
Alan puxou uma cadeira sem fazer barulho.
— Respira. Toma água. Se continuar assim eu mesmo te levo para o pronto atendimento.
Marcelo balançou a cabeça.
— Não. Eu preciso falar com ela. Saber se estão bem. Se precisam de dinheiro. Onde estão. — Ele engoliu seco. — Eu preciso buscar minha mulher.
Ele apertou imediatamente o botão de retorno. Ligou para o número, chamou mas ninguém atendeu. Tentou novamente, mas dessa vez ouve uma mensagem automática: número inexistente.
O desespero subiu pela garganta como fogo. Ele levantou bruscamente, a cadeira arrastando no chão. Ligou de novo.
— Marcelo.— chamou Alan.
Mas era inútil, Marcelo não escutava nada e nem ninguém.
— Atende… — murmurou, mas houve somente o silêncio. Ele bateu o celular contra a mesa com força. — Caramba Milena! Por que está fazendo isso comigo?
O celular ainda estava na mão dele quando a ligação caiu pela terceira vez. Marcelo ficou parado alguns segundos, respirando pesado. Depois levantou o olhar.
— Alan.
O amigo percebeu a mudança no tom.
— O quê?
— Eu quero esse número rastreado.
— Marcelo…
— Eu não estou pedindo milagre. Estou pedindo que você tente.
Alan cruzou os braços.
— Se for chip descartável, vai dar em nada.
— Então rastreia o envio do vídeo. IP. Torre. Qualquer coisa.
Na manhã seguinte, Marcelo estava de pé antes do sol nascer. Não tinha dormido. A camisa era outra, mas o cansaço era o mesmo.
A manchete piscava na tela.
“Hospital De Valliére enfrenta investigação interna sobre contratos terceirizados.”
Marcelo leu a notícia sem piscar. Ele fechou o notebook e entrou na sala de reuniões. Seu pai, Augusto, já estava lá.
— Você viu? — o pai perguntou.
— Vi.

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