Longe do caos que engolia a vida de Marcelo, a noite estava tranquila demais no apartamento de Milena. As crianças já tinham tomado banho. A moça que ajudava com os pequenos estava sentada no quarto ao lado, contando uma história baixa enquanto dois dos bebês lutavam contra o sono. Os outros dois já dormiam.
Na cozinha, Lívia mexia o molho na panela, distraída com seus próprios pensamentos. Milena estava sentada à mesa, separando algumas notas e moedas.
O salário da faxina daquela semana tinha vindo incompleto outra vez. As notas eram poucas demais para tantas necessidades. Ela respirou fundo, segurando a frustração no peito, e anotou no caderno já cheio de contas rabiscadas. Sempre anotava. Era a única forma de manter algum controle quando todo o resto parecia escapar pelas mãos.
Álvaro estava no sofá, assistindo televisão com o volume baixo. Nem prestava muita atenção. Era só para quebrar o silêncio.
— O leite da Valentina aumentou de novo. — Milena comentou, sem erguer o olhar.
— Eu vi... — Lívia respondeu da cozinha. — Amanhã eu passo naquela farmácia mais longe, lá costuma ser um pouco mais barato.
Milena assentiu. Ela levantou da cadeira, foi até a pia, pegou um copo e encheu de água. Estava exausta. O corpo doía por carregar o peso muito maior que quatro filhos e uma rotina apertada. A cabeça latejava, não só pelo cansaço, mas pela tensão constante de viver sempre esperando o próximo problema.
Foi quando ouviu.
" O Ceo Marcelo De Valliére pode anunciar noivado nos próximos dias…"
O nome dele atravessou a sala como um eco interminável. Milena congelou. O ar parecia ter sido sugado dos pulmões de uma vez só. Na televisão, a imagem apareceu. Marcelo ao lado de Tessa Albuquerque. Ela sorrindo para os fotógrafos. Ele sério, olhar baixo, mãos no bolso.
A legenda abaixo: “Possível união fortalece grupo empresarial.”
Milena sentiu o sangue escoar do rosto, deixando-a pálida, vazia.
— Filha...— murmurou Álvaro.
A reportagem continuou.
"Fontes próximas afirmam que a aproximação dos dois vem acontecendo há meses…"
— Meses?— Milena sussurrou. O copo escorregou. O vidro bateu no chão e se partiu em vários pedaços.
Lívia saiu da cozinha assustada.
— O que foi?
Álvaro já estava de cabeça baixa.
Milena não conseguia falar, sequer piscava, os olhos estavam fixos na tela. Até que outra imagem apareceu. Dessa vez, Tessa segurando o braço de Marcelo em um evento formal. Um sorriso calculado no rosto dela.
— Não é possível … — Lívia murmurou, caminhando até mais perto da televisão.
O apresentador falava sobre “novo começo”, “reconstrução da imagem pública”, “união estratégica”.
Milena soltou um riso curto, quebrado, que não tinha nada de humor. Era o tipo de riso que nasce quando o coração não sabe mais como reagir. Mordeu os lábios com força até sentir o gostometálico do sangue. Numa tentativa de que a dor física pudesse distrair da outra, muito mais profunda.
— Estratégica… — repetiu.
Álvaro olhou para ela.
— Milena…

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