Milena forçou um sorriso quando Jane apareceu na porta do corredor.
— Está tudo bem? Eu ouvi um barulho…
Milena respirou fundo antes de responder.
— Está sim, Jane. Foi só um copo. Obrigada pela preocupação.
A jovem assentiu e voltou para o quarto das crianças. Com a voz baixa cantou uma canção de ninar. Talvez aquilo era uma forma de proteger aquele pequeno mundo do que estava acontecendo na sala.
O silêncio ficou pesado outra vez.
Álvaro falou primeiro, cauteloso.
— Se isso for verdade… talvez ele tenha sido pressionado. Eu sei que o pai dele nunca aceitou que Marcelo não reatasse com Kethelyn.
Milena levantou a mão, interrompendo.
— Pai... está tudo bem. Isso já não importa mais. — engoliu em seco. — Só fiquei triste pois talvez eu tenha superestimado o que eu significava.
Lívia se aproximou, inconformada.
— Para de se enganar. Liga para ele. Para de fugir. Você conhece o Marcelo. Ele deve ter uma explicação.
Milena ficou alguns segundos olhando para a parede, o olhar perdido.
— Claro que tem. Ele sempre tem.
A frase saiu baixa, firme. Não era uma forma de se convencer de que estava tudo bem.
— Amiga… — Lívia balançou a cabeça. — Você vai mesmo deixar isso assim? Vai deixar que outra ocupe o lugar que é seu?
— Eu não tenho escolha. Se eu voltar aquela mulher vai machucar meu pai... meus filhos e ele.
— Não tem escolha ou tem medo da verdade?
Milena apertou o corte na palma da mão. A dor veio rápida. Ela fechou os olhos por um instante e se levantou.
— Lívia, vamos mudar de assunto. Eu não quero mais falar sobre isso.
Lívia respirou fundo, mas não desistiu.
— Eu ainda acho que tem coisa errada nessa história.
Milena soltou um suspiro longo, foi até a pia, a água fria correu sobre o corte, levando o sangue embora pelo ralo. Ela observou o próprio reflexo no vidro escuro da janela. Estava pálida. Os olhos vermelhos. Exausta.
— Se tem alguma coisa errada… não sou eu que preciso resolver.— Não havia ódio na voz dela. Só dor misturada com mágoa.
Ela pegou o pano e começou a recolher os cacos espalhados pelo chão. O vidro estalava contra o balde.
Milena olhou para os filhos e sorriu.
— Sim... eles são perfeitos.
Jane se despediu e saiu, fechando a porta com cuidado. O quarto ficou em silêncio. A luz fraca que entrava pela janela iluminava os quatro rostos adormecidos.
Milena passou a mão pelos cabelos de um deles, ajeitou a manta de outro. Ela sentou na beira da cama, ficou imóvel por alguns segundos, depois levou a mão ao dedo. Ela girou o anel devagar e em seguida puxou com um movimento hesitante. O metal deslizou e deixou a pele marcada. Ela segurou a aliança na palma da mão e ficou olhando para ela, até que sem conseguir evitar, as lágrimas vieram em silêncio.
Na gaveta da cômoda havia uma foto, ela abriu. Marcelo sorria na imagem. Um sorriso raro, verdadeiro. O braço envolvia a cintura dela. Os dois estavam desarrumados, felizes, longe de imprensa, longe de interesses.
Milena passou o polegar pelo rosto dele na foto.
— Isso tem que ser mentira…— A voz falhou.
Ela olhou outra vez para o anel na própria mão. Depois para a imagem, depois para os filhos dormindo. O som da televisão ainda ecoava na memória: noivado, reconstrução, união estratégica. Quatro palavras foram suficientes para aquela segurança de que eles ainda pudessem ficar juntos se quebrasse.
Milena forçou um sorriso, enxugou o rosto com o dorso da mão. Colocou a foto de volta na gaveta, mas hesitou antes de fechar. Olhou para o sorriso dele por mais alguns segundos. Então fechou, em seguida colocou o anel sobre a cômoda. Ficou encarando o brilho frio da pedra.
— Talvez esse seja realmente o nosso fim.
Ela deitou ao lado dos filhos e os puxou para perto. Enterrou o rosto no travesseiro, deixando que as lágrimas escorressem sem fazer som.
Na sala, tudo permanecia intacto. Mas naquela noite algo dentro dela se quebrou. E, diferente do copo no chão, não fez barulho nenhum.

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