Assim que entrou, Milena notou o silêncio incomum dos cômodos. A sala estava aparentemente normal. O sofá no lugar, os brinquedos espalhados pelo tapete, a televisão desligada. Nada parecia fora do comum. Ainda assim, algo incomodava.
— Lívia, você esqueceu a porta aberta de novo? — disse em voz alta, quase rindo. — Vive no mundo da lua.
A porta bateu atrás dela quando empurrou com o pé. O barulho ecoou pelo apartamento vazio. Ela deixou a bolsa no sofá e caminhou até o quarto. Sentou na cama, tirou os sapatos e pegou o celular para ligar para Lívia.
— Oi, amiga, muito trabalho? — a voz veio animada do outro lado. — A gente trouxe os quatro para a pracinha aqui perto. Leon queria dar comida para os pombos. Você já está terminando?
Milena fechou os olhos por um segundo e sorriu, imaginando os filhos correndo pelo parquinho.
— Cheguei mais cedo hoje. Fiquei um pouco preocupada porque a porta estava aberta.
— Sério? Eu tenho certeza que tranquei. Alguém entrou?
— Não. Está tudo no lugar.
— Que bom. Já estamos voltando. Quer alguma coisa do mercado?
— Não precisa. Pode ficar tranquila que hoje eu faço o jantar.
— Então guarda um beijo para mim. Estamos indo.
— Estou esperando.
Encerrada a ligação, o silêncio voltou a ocupar o apartamento. Milena ficou parada no meio do quarto, observando o espaço. O guarda-roupa fechado, as camas arrumadas.. Tudo igual. Mesmo assim, a sensação no peito não diminuía.
Afastou os pensamentos e pegou uma roupa limpa. Entrou no banheiro e abriu o chuveiro no máximo. A água quente caiu forte sobre os ombros, escorrendo pelas costas, mas não levou o cansaço acumulado. A imagem de Marcelo invadiu seus pensamentos.
— Você realmente não desistiu de nós... — murmurou, deixando que a água misturasse com as lágrimas que surgiram sem aviso.
Ficou ali mais alguns minutos até que a respiração estabilizasse. Saiu do banho, vestiu uma roupa confortável, prendeu os cabelos ainda úmidos em um coque baixo e olhou no relógio. Quase sete da noite. Tinha tempo até eles voltarem.
Foi até a cozinha e colocou o arroz para cozinhar. Cortou cenoura, abobrinha e tomate em pedaços pequenos. Temperou o frango com alho e sal. Enquanto o fogo fazia o trabalho, pegou o celular novamente e discou para o aeroporto.
— Boa tarde, informações de voos.
— Boa tarde. Eu gostaria de saber os horários para Nova York amanhã ou depois. E os valores na classe econômica.
A atendente listou opções, horários com escalas longas, valores altos. Milena anotava tudo em um papel sobre a bancada, fazendo contas rápidas de cabeça.
— E disponibilidade?
— Temos saída às 18h20 direto para JFK. Ainda há lugares, mas recomendo confirmar o quanto antes.
— Certo. Vou precisar de sete passagens. Três adultos e quatro crianças de três anos recém completados.
— Todas ocupam assento normalmente. Posso gerar a reserva com prazo para pagamento até 23h59 de hoje.
Com tudo acertado, boletos gerados pelo e-mail. Milena desligou e apoiou as mãos na bancada, a ansiedade fazia seu coração acelerar. Pegou o celular outra vez e ficou olhando a foto de proteção de tela. Ela e Marcelo segurando os bebês ainda recém-nascidos, os dois sorrindo e felizes.
— Logo vamos estar com você, amor...— disse em voz baixa.

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