Naquela noite Milena não explicou o que aconteceu. Apenas disse que não iam embora e mudou de assunto. Sua mente estava em curto, não conseguiu dormir um só segundo. Ficou sentada na beira da cama depois que todos adormeceram. Leu o bilhete tantas vezes que já sabia cada palavra de cor.
Sabrina não estava blefando. Ela entrou ali. Tocou nas suas coisas. Deixou o recado claro de que estava perto. Milena entendeu que se tentasse ir embora, Sabrina reagiria. Se avisasse Marcelo onde estava ou se denunciasse, talvez reagisse pior.
Às quatro e meia da manhã ela se levantou, vestiu jeans escuro e prendeu o cabelo. Quando Lívia acordou, encontrou Milena na cozinha tomando café.
— O que realmente aconteceu?
— Nós só não vamos embora. Não agora.
Lívia ficou em silêncio. Quando o pai chegou na cozinha e insistiu em saber o que a fez mudar de ideia, Milena não explicou tudo. Só disse o essencial. Que o dinheiro tinha sido roubado e que sair agora era arriscado. Álvaro ouviu calado. Ele sabia que quando a filha falava naquele tom, a decisão já estava tomada.
Às oito da manhã Milena saiu. Não demorou muito quando chegou à boate. As portas estavam fechadas. O letreiro apagado. Bateu firme. Um segurança abriu, surpreso.
— Ainda não abrimos.
— Eu sei. Vim falar com Caendra.
Ela apareceu minutos depois, de salto baixo, cabelo soltos e expressão confusa ao ver Milena ali tão cedo.
— Mila? Aconteceu alguma coisa?— perguntou preocupado
— Aconteceu.
Caendra levantou uma sobrancelha.
— Vou ser direta, Caendra. Vim saber se o convite ainda está de pé?
O silêncio durou alguns segundos. Caendra a observou dos pés à cabeça, tentando entender se era impulso ou desespero.
— Você passou dois anos dizendo que nunca pisaria nesse palco.
— Eu sei.
— E agora quer subir nele?
— Quero.
— Mudou de opinião assim?
— Não. Mudei de prioridade.
Caendra estreitou os olhos.
— Tem certeza, Mila? Aqui dentro não é brincadeira. Não é fantasia. É trabalho. É exposição.
— Eu não estou procurando fantasia.
— E Marcelo? Ontem você disse que ia...
— Eu sei.— interrompeu.— Marcelo não está aqui. Então, eu preciso parar de pensar no que sinto e encarar a realidade.
A resposta foi seca. Objetiva. Caendra percebeu que não adiantava pressionar.
— Se você entrar, não pode entrar pela metade. Não existe espaço para arrependimento no meio do palco.
— Eu não me arrependo fácil.
Caendra sustentou o olhar por mais alguns segundos e então assentiu.
Alguns homens se inclinaram nas mesas. Outros cochicharam. Ela não procurava aprovação. Executava. Quando a música mudou de ritmo, ela acompanhou com movimento mais fluido. Desceu até a beira do palco, parou a um metro de distância da mesa mais próxima e virou de costas no tempo certo. Não permitiu toque. Não permitiu invasão. Quando terminou, inclinou o corpo em agradecimento e saiu pelo mesmo ponto de entrada.
Nos bastidores o silêncio foi quebrado por um leve aplauso das próprias dançarinas.
— Nada mal para primeiro dia. — disse uma delas.
Caendra se aproximou.
— Você aprende rápido.
— Eu observo rápido.
— Quer continuar?
— Sim.
Milena tirou a máscara e encarou o próprio reflexo novamente. Não havia vergonha. Havia uma linha traçada. Sabrina queria controle. Milena não daria o luxo da fragilidade. Trabalharia. Juntaria dinheiro de novo. Com mais cuidado. Com outro plano. Talvez não para fugir imediatamente, mas para estar pronta quando surgisse a oportunidade certa.
No fim da noite, enquanto as outras riam e comentavam sobre clientes, Milena ficou sentada ajustando o salto.
— Está com medo? — perguntou Caendra.
— Não do palco.
Caendra entendeu o que não foi dito.
Ela saiu da boate já de madrugada. O ar frio bateu no rosto. Caminhou devagar até o apartamento pensando que aquilo não era o futuro que tinha imaginado quando saiu de Nova York. Não era o que sonhava quando pensava em voltar para Marcelo. Mas era o que precisava fazer agora.

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