A adaptação na boate não foi simples. As primeiras semanas exigiram mais controle emocional do que habilidade física. Milena acordava cedo, organizava as crianças para ir na escolinha, ajudava no café da manhã e saía dizendo que ia para o trabalho indicado por Caendra.
Para Álvaro, ela servia mesas em um lugar movimentado do centro. Dizia que a casa era elegante, que o público pagava bem e que as gorjetas compensavam o cansaço. Não gostava de mentir para o pai. Cada vez que ele perguntava se o ambiente era respeitoso, ela sustentava o olhar e respondia que sim. Não era exatamente mentira. Dentro da boate, ela era respeitada. O que escondia era o palco.
Álvaro acreditava. Ele via o dinheiro entrando, via a comida melhorando na mesa, via as crianças com roupas novas e não questionava demais. Para ele, a filha estava finalmente colhendo algo justo depois de tanto tempo de dificuldade.
Milena carregava o peso da omissão sozinha. Não se arrependia da decisão. Se arrependia apenas de não ter tido coragem antes. Em poucas semanas a renda dobrou o que ela já tinha ganhado em dois anos. Pagou dívidas pequenas, trocou eletrodomésticos antigos e, dois meses depois, conseguiu alugar uma casa afastada do centro. Pequena, mas tinha um lindo jardim.
A mudança foi silenciosa e prática. Caixas organizadas, colchões no chão na primeira noite e as crianças correndo na grama pela manhã como se tivessem descoberto um novo mundo. O jardim não era grande, mas tinha espaço suficiente para uma bola, uma piscina inflável e uma mangueira aberta no verão. Milena observava da janela da cozinha enquanto preparava o jantar. Segurança e liberdade eram luxos que ela não tinha conseguido oferecer antes. Agora oferecia.
A conversa com Lívia aconteceu na segunda semana na casa nova. Milena sentou com ela na mesa da cozinha depois que as crianças dormiram.
— Você não precisa mais procurar trabalho.— disse Milena.
Lívia franziu a testa.
— Como assim?
— Eu estou ganhando o suficiente para nós duas. E mais.
— Milena, eu não vou viver às suas custas.
— Não vai. A gente divide tudo igual. Como sempre fizemos.
— Mas eu quero ajudar.
— Você ajuda ficando com eles à noite. Eles precisam de alguém que eu confie de verdade, que seja meus olhos quando eu não estou por perto. Eu volto muito tarde, com você aqui eu sei que posso ficar tranquila.
Lívia ficou em silêncio, analisando.
— Você tem certeza?
— Tenho. Meu pai já não é tão novo.... a cadeira de rodas dificulta dele cuidar das crianças como ele quer. Eu sei que estou pedindo de mais...

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