Milena sentiu o estômago contrair, mas não deixou que o corpo denunciasse. Deu um passo para trás, alinhou os ombros e sustentou o olhar por trás da máscara.
— O senhor está confundindo as coisas. — respondeu seca. — Aqui fora eu não atendo ninguém.
Ele inclinou a cabeça levemente, como se analisasse a resposta. Manteve um meio sorriso controlado no rosto.
— Você não precisa ficar na defensiva, Aurora...— disse com o nome arrastado.— Está tarde. Me deixa te levar para casa.
— Não preciso de carona. — rebateu. — Muito menos de clientes.
A palavra foi escolhida de propósito. Cliente. Nada além disso.
O sorriso dele se ampliou um milímetro.
— Não sou como os outros lá dentro.
— Eu realmente não me importo de como você seja.
O silêncio que se instalou não era confortável, mas também não era ameaçador. Milena percebeu que ele estudava cada reação. Não havia bebida na mão, não havia cheiro de álcool. Ele parecia estar sóbrio e consciente.
— Você é mais interessante fora do palco. — ele comentou.
— Engano seu. Fora do palco eu não existo para ninguém dali.
Ela deu mais um passo para o lado, deixando claro que iria embora. Nesse momento, a porta lateral abriu novamente. Caendra surgiu acompanhando uma das meninas até o carro. O olhar experiente dela captou a cena em segundos. Milena parada. Homem desconhecido próximo demais do portão.
Sem hesitar, Caendra fez um gesto discreto. Dois seguranças que estavam na área interna vieram imediatamente.
— Está tudo bem aqui? — Caendra perguntou, já se posicionando ao lado de Milena.
— Está. — Milena respondeu antes que qualquer tensão se formasse. — O senhor estava indo embora.
Os seguranças pararam a poucos passos. Postura firme. Nenhuma palavra. O homem ergueu as mãos levemente, num gesto de que não havia intenção errada.
— Não há problema. Já estou saindo.
Ele deu um passo para trás, depois outro. Manteve o olhar fixo em Milena por um segundo a mais do que o necessário.
— Boa noite, Aurora.
Ela não respondeu. Ele se afastou pela calçada, sem pressa, como se a retirada fosse parte de algum plano. Só quando virou a esquina Milena soltou o ar que estava preso.
Caendra cruzou os braços.
— Ele te incomodou?
— Não.
Caendra analisou o rosto dela por trás da máscara.
— Quer que reforcem sua saída pelos próximos dias?
Milena pensou por um instante. Medo existia. Mas não podia viver demonstrando isso.
— Não precisa. Eu sei me virar.
— Eu sei que sabe.— Caendra respondeu devagar. Fez sinal para os seguranças voltarem.— Qualquer coisa, você me liga. Não importa a hora.
— Pode deixar.
A respiração do outro lado mudou levemente. Marcelo fechou os olhos por um segundo.
— Continue procurando.
— Entendo seu desespero, Marcelo. Mas se ela quisesse ser encontrada, já teria sido. — respondeu com um sorriso.
— Eu sei que Sabrina está apagando qualquer vestígio dela.
Bruno voltou a olhar para a casa. Uma sombra passou novamente pela cortina.
— Está! Mas não se preocupe, eu estou atento a qualquer pista. Continuo procurando sem descanso.
— Certo. Não importa o valor. Só descubra onde minha mulher e meus filhos estão.
A ligação foi encerrada. Ele deixou o telefone no banco ao lado e mordeu o canto inferior boca.
Dentro da casa, Milena apareceu na cozinha por alguns segundos. Bebeu água. Encostou na pia. Pensativa.
Bruno observava cada detalhe, ele passou a mão no queixo, avaliando. Se dissesse que já tinha a encontrado semanas atrás, Marcelo estaria ali em menos de 24 horas. Ele não permitiria que Marcelo a encontrasse tão facilmente. Não depois de ver ela de perto.
Em um movimento se inclinou no banco e continuou olhando a casa com interesse.
Aurora no palco era uma coisa. Milena naquela cozinha era outra. E ele queria entender o que ela tinha de tão especial para deixar um homem como Marcelo a ponto de enlouquecer.
O motor do carro ligou silencioso minutos depois. Ele saiu devagar, sem farol alto. Na janela do quarto, Milena teve a sensação estranha de que estava sendo observada novamente. Mas quando puxou a cortina, não havia ninguém.
Longe dali, enquanto dirigia, Bruno murmurou para si mesmo:
— Ainda não, Marcelo… Três anos são tempo demais para um amor sobreviver intacto.

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