Bruno a olhou demoradamente, percebendo que o jogo começava a sair do controle. Sabia que Marcelo não era homem de delírios ou fantasias precipitadas. Se afirmava ter reconhecido aquela voz, ele estaria disposto a sair agora mesmo de lá para ver pessoalmente se era mesmo um erro.
— Não seja tão paranoico, amigo. — disse por fim, apoiando o cotovelo no volante e mantendo o tom casual.
Do outro lado da linha, Marcelo respirava pesado, como se lutasse contra uma certeza que não queria admitir.
— Coloca no viva-voz.
A exigência veio firme, sem espaço para negociação.
Bruno sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos.
— Pra quê? Não tem necessidade disso.
Milena se forçou a espantar aquela tensão silenciosa que atravessava aquela ligação. Ela inclinou o rosto na direção de Arthur, que permanecia inquieto, talvez tivesse medo de receber alguma punição. Seus curtos dedos estavam entrelaçados no próprio short.
— Não precisa ter medo... — disse Milena com suavidade, voz baixa. — Você não fez por maldade. Logo ele estará correndo de novo… e se machucando de novo.
Arthur ergueu os olhos, buscando absolvição.
— Não ficou brava comigo?
Milena sorriu, cansada, mas sincera.
— Não. Você é um menino bom. Eu não teria nem coragem de ficar brava com você.
Do outro lado da linha, houve um silêncio abrupto. A respiração de Marcelo falhou novamente de maneira quase imperceptível. Bruno percebeu. Disfarçadamente, inclinou o celular alguns centímetros na direção da voz dela, o suficiente para que Marcelo ouvisse com mais clareza, mas não o bastante para denunciar a intenção.
— Você encontrou ela! — Marcelo afirmou, a voz agora mais baixa, porém carregada de tensão. — Me fala, Bruno. Onde ela está?
Bruno recostou a cabeça no banco e fitou o para-brisa como se analisasse o nada.
— Cara, eu estou no meio da rua. Você está criando coisa na sua cabeça novamente. Já disse: não encontrei nada. Nem um rastro sequer.
— Não brinca comigo, Bruno. Eu reconheci a voz.
— Você quer reconhecer. É diferente. — Ele suavizou o tom, como quem tenta acalmar um amigo instável. — Eu ligo depois. Estou com a minha irmã.— sussurrou as últimas palavras.
Guardou o celular com a mesma calma que usava para mentir sem piscar. Por dentro, no entanto, o sangue corria quente demais para alguém que dizia não ter encontrado nada.
Milena já abria a porta para descer.
— Obrigada por trazer a gente.— Respondeu com educação sem abrir espaço para maus entendidos.
— Não foi nada. — respondeu ele.
Ela desceu, mudou Mason de braços e fechou a porta com cuidado. Antes de seguir, voltou-se por um instante.
— Boa noite, Bruno.
Ele apenas assentiu, observando até que a porta se fechasse. Só então soltou o ar que vinha prendendo.
— Tadinho. Mas ele ja está melhor?
— Sim. Mais uma vez ele pediu pelo pai. Sabe como as crianças são.
Ela assentiu com um olhar triste. Puxou a cadeira e indicou para ele se sentar.
— Primeira vez que vejo minha amiga conversando sem sete pedras na mão com um homem.— Lívia brincou.
— É bom saber que ainda existe homens bons que não se aproximam da minha filha sem interesse.— comentou Álvaro.
Bruno sorriu satisfeito. Nesses dois meses se aproximando de forma sorrateira, ele conseguiu ganhar a confiança de todos. Até mesmo Lívia com seu olhar aguçado para ler as pessoas, acreditou naquele papo de: só quero ser amigo dela.
— Mila se tornou uma grande amiga. Foi muito bom conhecer ela. Tinha acabado de sair de um relacionamento turbulento e ela aceitar minha amizade foi a única coisa boa nessas últimas semanas.
Milena sorriu envergonhada. Depois de alguns minutos, ele falou:
— Sei que é repentino, mas posso te pedir um favor?
Milena o encarou com o olhar um pouco sério, mas não endureceu como antes.
— Depende do favor.
Bruno respirou fundo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado calculado.
— A empresa da minha ex-esposa vai dar uma festa amanhã. Um evento grande. Comemoração importante e queria que você fosse comigo.

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