Marcelo sem esperar por resposta, disse o que era para ela fazer e saiu do consultório sem olhar para trás.
A porta se fechou, Milena ficou parada por alguns segundos. O silêncio se instalou. Ela respirou fundo e voltou a atenção para a mesa. Havia papéis espalhados, relatórios simples, formulários que precisavam ser organizados. Nada complicado. Trabalho administrativo básico. Exatamente o tipo de coisa que ela sabia fazer bem.
Milena puxou a cadeira, sentou e começou a separar os documentos por ordem, tentando manter a mente focada. Mas não conseguia parar de pensar em como estar com ele sempre lhe trazia alívio e angústia ao mesmo tempo.
Milena passou a mão no rosto frustrada e deslizou os olhos por uma planilha, digitou alguns dados no computador e ajeitou o jaleco no corpo. Estava concentrada quando a porta se abriu de repente.
Ela se assustou. O corpo inteiro reagiu de uma vez. Ombros tensos, coração acelerado, a mão fechando involuntariamente sobre a caneta.
— Desculpa… — a voz de Caio veio rápido. — Eu não quis assustar.
Ele estava parado a poucos passos da mesa, segurando uma pasta azul. Não havia batido. Apenas entrou, como se aquilo fosse natural. Milena precisou de um segundo para se recompor.
— Tudo bem, professor. — respondeu, baixo.
Ela se levantou. O sorriso que ofereceu foi educado, breve, sem abrir espaço para qualquer pensamento contrário.
Caio levantou a sobrancelha por notar que suas ações impunha distância.
— O doutor Marcelo não está? — perguntou, olhando rapidamente ao redor.
— Saiu agora. — Milena respondeu, voltando a sentar. — Disse que logo retornaria.
Caio assentiu, aproximando-se alguns passos, o suficiente para Milena sentir o espaço diminuir. Ela endireitou as costas e voltou os olhos para a tela do computador.
— Vejo que já está trabalhando. — comentou ele. — O setor costuma ser puxado no início.
— Sim. — respondeu. — Estou organizando os relatórios da semana.
Caio apoiou a pasta sobre a mesa, inclinando-se levemente para observar o que ela fazia. Milena percebeu a aproximação e travou os movimentos, mas depois continuou digitando.
— Se quiser ajuda… — ele começou.
— Agradeço, mas está tudo sob controle. — respondeu, sem olhar para ele. A voz saiu calma e educada.
Caio observou por alguns segundos. Havia algo diferente nela. Não era a mesma aluna da sala de reuniões. Havia contenção, um limite invisível.
— O que exatamente o doutor pediu para você fazer? — ele perguntou.
Milena hesitou apenas o tempo necessário para não parecer defensiva.
— Organização administrativa. — respondeu. — Conferência de dados, arquivamento, essas coisas.
Caio assentiu de novo, mas não se afastou. Pelo contrário. Deu mais um passo, ficando perto demais para o conforto dela. Milena sentiu o estômago apertar.
Ela lembrou das palavras de Marcelo.
“ Homens não são educados desse jeito sem motivo."
— Milena… — Caio chamou, baixando um pouco a voz.
Ela levantou o olhar, mantendo a expressão neutra.
— Sim?
Ele se inclinou levemente, apoiando uma das mãos na mesa. A proximidade era desnecessária.
— Posso te fazer uma pergunta pessoal?
O silêncio se estendeu por um segundo a mais do que deveria.
— Não me leve a mal, professor. Mas prefiro manter as coisas profissionais. — respondeu ela.
Caio sorriu de leve.
— Só quero entender uma coisa. — insistiu. — Você e o doutor Marcelo, têm alguma coisa?



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