Ela se debateu, o corpo tremendo, o coração disparado como se fosse explodir. As caixas atrás dela tremeram com o impacto. O carrinho caiu de lado, fazendo um barulho alto demais para ser ignorado.
Esse som fez Caio hesitar. Milena aproveitou o segundo de distração e deu um chute desajeitado, acertando a perna dele. Não foi forte, mas foi suficiente para fazê-lo soltar.
Ela escapou pelo lado, correu até a porta e a abriu com força, quase tropeçando ao sair. O corredor nunca pareceu tão longo e vazio como agora. Ela não olhou para trás.
As mãos tremiam. A respiração vinha curta. O braço doía onde ele havia apertado. A marca dos dedos dele já havia começado a escurecer.
Milena entrou no banheiro mais próximo e se trancou. Encostou as costas na porta e deslizou até o chão. O choro veio. Silencioso. Descontrolado.
Após minutos intermináveis, ela saiu, ajeitou o cabelo em um coque mal feito. Lavou o rosto e os braços mais vezes do que precisava. A água fria ajudava a afastar o tremor visível, mas não o que continuava preso sob a pele. Saiu do banheiro com os papéis firmes contra o peito.
Respirou fundo antes de atravessar o corredor.
O escritório de Marcelo estava como sempre. Seguro demais para o estado em que ela se encontrava. Bateu duas vezes antes de entrar, esperando o tom grave autorizar.
— Entra.
Ela abriu a porta e caminhou até a mesa, mantendo os olhos nos documentos, evitando qualquer coisa que pudesse denunciá-la. Colocou a pasta sobre a superfície de madeira.
— Aqui estão os relatórios que o senhor pediu.
Marcelo levantou o olhar devagar. Não pegou os papéis de imediato. Observou primeiro. Ele tentava encontrar seus olhos, mas ela mantinha a cabeça baixa.
— Você demorou. — disse, sem acusação.
— O setor estava cheio hoje... — respondeu, rápida demais com o choro entalado na garganta.
Ele puxou a pasta, folheou por cima, mas já não prestava atenção no conteúdo. Os olhos voltaram para ela. Foi aí que viu o vermelho em seus olhos, o suor escorrendo da sua testa.
— Está tudo bem?
Milena assentiu quase no mesmo instante.
— Está, sim.
A resposta saiu pronta, ensaiada. Marcelo apoiou os cotovelos na mesa, cruzando as mãos.
— Tem certeza?
Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que conseguiria se estivesse realmente tranquila.
— Sim.
O silêncio se instalou entre os dois. Marcelo não insistiu. Apenas voltou ao trabalho com um gesto contido.
— Pode sentar ali e esperar um pouco. — disse. — Já te libero.
Milena assentiu e foi até a mesa lateral, onde costumava organizar arquivos. Sentou-se, abriu um dos relatórios e começou a revisar números que já conhecia. As letras se embaralhavam. O cansaço se acumulava nas pálpebras.
Ela piscou algumas vezes, tentando manter o foco. Não percebeu quando o corpo cedeu.
A cabeça tombou devagar sobre os braços cruzados. O lápis escorregou dos dedos e rolou até a borda da mesa.
Marcelo ergueu o rosto ao ouvir o som quase imperceptível. Observou a cena sem se mover de imediato. Milena dormia ali, encolhida, como se o próprio corpo tivesse decidido parar por conta própria.
Ele se levantou em silêncio. Aproximou-se devagar, atento a cada detalhe. O rosto dela estava sereno demais para alguém que dizia estar bem. Uma mecha de cabelo caía sobre os olhos.
Com cuidado, afastou os fios com os dedos. O toque foi leve, respeitoso. Milena não acordou.
Marcelo tirou o blazer e o colocou sobre os ombros dela, ajeitando o tecido para cobrir-lhe as costas. Ficou ali por alguns instantes, observando a respiração tranquila, o jeito frágil como dormia sentada, sem defesa alguma.
Algo apertou em seu peito, uma sensação que ele não ousou nomear.



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