Milena chegou ao hospital já no fim da tarde. O céu começava a escurecer quando atravessou a entrada principal, os passos mais lentos do que de costume. O cansaço não estava só no corpo. Era algo mais fundo, preso no peito, difícil de organizar.
Subiu até o andar do pai em silêncio. Cumprimentou uma enfermeira no corredor com um aceno discreto e parou por um segundo diante da porta do quarto antes de entrar. Respirou fundo, como se precisasse deixar algo do lado de fora.
Álvaro estava acordado, sentado na cama, apoiado em travesseiros. Lia alguma coisa no celular, mas levantou o olhar no mesmo instante em que ela entrou. O sorriso veio automático, mas não durou tanto quanto de costume.
— Oi, filha. — disse ele. — Achei que você viria mais cedo hoje.
Milena aproximou-se, deixou a bolsa sobre a cadeira e foi até a cama. Inclinou-se para beijar o rosto dele, demorando um pouco mais do que o normal.
— O estágio foi puxado. — respondeu.
Álvaro a observou com atenção. Havia algo diferente. Ela estava mais quieta, os movimentos mais contidos. Quando se afastou, ele percebeu os olhos levemente inchados, o jeito cuidadoso com que evitava virar o rosto de repente.
— Você chorou? — perguntou, sem rodeios.
Milena congelou por um instante. Depois sorriu, um sorriso fraco, ensaiado.
— Não, pai. Só estou cansada.
Ele não respondeu de imediato. Guardou o celular e ajustou a posição na cama com cuidado.
— Você anda cansada demais ultimamente. — comentou. — Trabalhando, estudando, vindo aqui todos os dias… Isso vai te fazer mal.
— É só uma fase. — disse ela, sentando-se na cadeira ao lado da cama. — Logo as coisas se organizam.
Álvaro respirou fundo. Olhou para o teto por alguns segundos antes de voltar o olhar para a filha.
— Milena… — começou, a voz mais baixa. — Eu fiquei pensando de novo nisso.
Ela sentiu o aperto no estômago antes mesmo de ele concluir.
— Pensando no quê?
— Nos gastos. — disse ele. — Nos médicos, nos exames, nesse quarto… Isso tudo custa caro demais. Eu sei que você já explicou, mas não faz sentido. Você é só uma estudante. De onde saiu o dinheiro?
Milena apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou os dedos.
— Pai, a gente já conversou sobre isso... — respondeu com calma. — Eu já expliquei o que aconteceu.
— Explicou por cima. — insistiu ele. — Disse que teve ajuda, que alguém te deu uma oportunidade. Mas eu sou seu pai. Eu preciso saber se isso não está te custando mais do que dinheiro.
Ela levantou o olhar, encontrou o dele. Não havia acusação ali. Só preocupação.
— Não está. — disse firme. — Eu prometo. Eu não fiz nada errado. Não me coloquei em risco.
Álvaro a estudou por alguns segundos. Depois suspirou, vencido, mas não convencido.
— Você sempre foi responsável demais pra sua idade... — murmurou. — Só não quero que carregue o mundo sozinha.
Milena segurou a mão dele com cuidado.
— Eu estou bem, pai. — repetiu. — E o senhor também está. Isso é o que importa agora.
O silêncio se instalou por alguns instantes. Álvaro parecia prestes a dizer algo mais quando uma batida discreta soou na porta.
— Com licença. — disse uma voz masculina do lado de fora.
Milena virou o rosto no mesmo instante. O coração acelerou, mas o corpo não reagiu com tensão.
Marcelo entrou com passos calmos. Usava a mesma roupa, sem o jaleco, e trazia uma expressão contida, respeitosa. Parou próximo à porta antes de se aproximar da cama.
— Boa tarde, senhor Álvaro. — disse. — Desculpe incomodar.



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