Sem aviso, Lívia deu o último passo e o abraçou. Alan ficou rígido por alguns segundos, surpreso.
— Eu senti sua falta todos os dias.— Ela continuou.—Não tem ideia de quantas vezes eu peguei o telefone para te ligar, mas sabia que se eu fizesse colocaria a vida das crianças em perigo.
Devagar, o braço dele desceu ao redor da cintura dela, retribuindo o abraço. O copo de uísque ficou esquecido na outra mão.
Lívia ergueu o rosto, olhando diretamente nos olhos dele, em seguida ficou na ponta dos pés e o beijou. Foi um toque leve no começo, quase hesitante.
Alan não se moveu. Então, com um suspiro baixo, ele correspondeu. O beijo se aprofundou quando ele a encostou contra a parede fria da sacada, o corpo dele pressionando o dela. Uma das mãos dele subiu até a nuca de Lívia, segurando-a com firmeza, enquanto o copo de uísque era abandonado no chão com um tilintar abafado. O beijo foi ganhando intensidade, carregado de anos de silêncio, mágoa e desejo contido.
Lentamente seus lábios se separaram. Alan permaneceu parado por alguns segundos, observando Lívia como se estivesse tentando decidir se aquilo era um erro ou a única coisa que ainda fazia sentido.
Ela não desviou o olhar.
— A gente não devia… — ele começou, a voz baixa, quase sem força.
— Então por que você não foi embora ainda? — ela respondeu, sem recuar.
Aquilo o atingiu. Ele deu um passo à frente. A mão dele subiu devagar até o rosto dela. Lívia fechou os olhos por um segundo ao sentir o toque, inclinando levemente o rosto contra a palma dele. Seus rostos se aproximaram e novamente os lábios se tocaram, lentos, com gosto de saudade.
Os braços dela envolveram o pescoço dele, puxando-o para mais perto. A mão dele desceu pelas costas dela com um toque hesitante.
Entre passos lentos e respirações descompassadas, eles chegaram até a cama. O mundo lá fora deixou de existir. O passado deixou de ter voz. E, por algumas horas aquela era a entrega não só de corpos, mas também de almas.
Quando a manhã chegou, a luz atravessava as cortinas iluminando o quarto. Lívia dormia ao lado dele, rosto tranquilo, como se tudo estivesse resolvido.
Alan permaneceu deitado, olhando para ela. E foi exatamente ali que ele entendeu. Ele não conseguia fingir que tudo estava resolvido. O peso voltou de uma vez só, as mágoas, as dúvidas, tudo que ainda não tinha sido dito. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando ignorar a vontade de ficar. Mas a magoa não permitia que ele se entregasse a isso.
Com cuidado, afastou-se devagar, saindo da cama sem fazer barulho. Vestiu a roupa, cada movimento carregado de hesitação. Antes de sair, parou. Olhou para ela mais uma vez. E então pegou um papel sobre a mesa e escreveu poucas palavras. Deixou o bilhete ao lado da cama e foi embora.
Lívia despertou algum tempo depois. O primeiro instinto foi sorrir, ainda de olhos fechados, sentindo o calor do que tinha vivido. Mas ao estender a mão ao lado sentiu o vazio.
— Alan...— Sussurrou abrindo os olhos rapidamente.
Sentou na cama, o olhar percorrendo o quarto. O coração não entendeu, mas ele apertou. Foi quando viu o papel, pegou com as mãos trêmulas.
“Eu não consigo fingir que nada aconteceu. Me desculpa.”
Menos de dez palavras foram suficientes para destruir tudo dentro dela. O peito apertou de forma quase insuportável. Os olhos encheram de lágrimas antes que ela pudesse impedir. O papel escorregou entre seus dedos enquanto a respiração falhava.
— Claro… — sussurrou para si mesma, com um sorriso vazio que não chegou aos olhos.
A sensação de ter sido usada veio com força. Ali ela percebeu o quanto errou em relação a eles. Ainda tinha a ilusão de que pudessem recuperar o que foi perdido.


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