Milena desviou o olhar. Tentou mudar o assunto da conversa como se a pergunta dele não tivesse ficado suspensa no ar entre os dois. Álvaro estreitou os olhos ainda mais desconfiado.
— Pai… — começou, respirando fundo. — Não tem nada acontecendo. De verdade. O doutor Marcelo só está me ajudando.
Não houve justificativa longa. Nenhuma explicação detalhada. Apenas isso.
Álvaro sustentou o olhar dela por alguns segundos. Viu ali a mesma filha de sempre, doce, mas orgulhosa, incapaz de pedir ajuda, e entendeu que insistir não traria resposta alguma.
— Tudo bem. — disse por fim. — Quando quiser falar, eu vou estar aqui.
Ela assentiu, aliviada e, ao mesmo tempo, culpada.
A enfermeira que Marcelo contratou para cuidar exclusivamente de Álvaro entrou e afastou a tensão que Milena estava. Eles conversaram sobre coisas simples.
Comentou da comida sem sal do hospital, reclamou do suco aguado, contou que a vizinha veio vê-lo e disse o cachorro dela havia aprendido a subir no sofá sozinho. Milena ouvia tudo com atenção, sorria algumas vezes, mas mesmo assim o pensamento a traía.
Pouco depois, levantou-se.
— Vou indo agora. Preciso chegar na faculdade.
— Vai com cuidado. — ele respondeu. — E não se preocupe comigo.
Milena beijou a testa do pai, demorando um pouco mais do que de costume, e saiu do quarto.
No corredor, encontrou Marcelo encostado na parede oposta. Os braços cruzados, o corpo relaxado apenas na aparência. O olhar dele parou nos olhos dela no mesmo instante em que a viu.
— Você estava me esperando? — perguntou, surpresa.
— Estava. — respondeu ele. — Eu te levo até a faculdade.
O sorriso de alívio que surgiu no rosto dela foi pequeno, mas imediato.
— Que bom… Eu estava com receio de ir sozinha hoje.
Marcelo assentiu e fez um gesto para que seguissem. Deram apenas alguns passos quando o telefone dele tocou. Ele ignorou por algumas vezes, mas o toque estava insistente demais.
— Deve ser importante. Se precisar atender, eu te espero.— disse com a voz baixa.
Ele a olhou e voltou os olhos no celular, na terceira chamada tendeu.
— Alô.
Ele se afastou alguns passos, Milena observou Marcelo, enquanto nenhum som saía da boca dele. Apenas ouviu.
Milena percebeu a mudança antes mesmo de ele desligar. O maxilar se contraiu. Os olhos escureceram. Algo rígido tomou conta da postura dele.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, apreensiva.
Marcelo guardou o celular no bolso. Aproximou-se dela em silêncio, inclinou-se e depositou um beijo rápido em sua testa. Um gesto firme, automático.
— Devil vem te buscar. — disse, já se afastando. — Eu preciso resolver algo.
— Marcelo… — ela tentou chamá-lo.
Ele ouviu mas não parou.
— Depois a gente conversa. — respondeu, sem parar.
Marcelo seguiu pelo corredor com passos rápidos e pesados.
— Não existe nada mais importante do que a Kethelyn. — respondeu ele, por fim.
Milena levou a mão ao peito, sentindo o aperto se tornar quase físico.
— Você prometeu. — disse Katherine, irmã de Kethelyn, agora com mais dureza. — Prometeu que nunca a substituiria. Que nunca deixaria minha irmã sozinha.
— E eu não deixei. — Marcelo respondeu. — Eu estou aqui, não estou?
— Está porque eu te liguei. — rebateu Katherine. — Mas não esteve ontem. Nem anteontem, muito menos duas semanas atrás. Eu vi você com aquela garota dentro do carro. Pensei que ela fosse mais importante.
O som da cadeira sendo afastada ecoou baixo.
— Não diga bobagem, Katherine. — disse Marcelo.— Eu só precisava de um tempo longe de tudo isso.
Houve uma breve pausa antes da última frase, dita com frieza absoluta:
— Tempo? Lembre-se, Marcelo. Você deve isso a ela. Pode brincar com quem quiser, mas quando ela acordar, você precisa estar limpo.
— Eu só estou tentando viver minha vida, Katherine. Você acha mesmo que está sendo fácil pra mim? Que foi fácil esses últimos 6 anos que eu vivi aqui pedindo para que ela acorde?
— Para você está muito cômodo.— disse com raiva. Ela deu um passo a frente e se aproximou de Marcelo. — Lembre-se, se não fosse a Kethelyn, era você quem estaria nessa cama. Por sua culpa minha irmã parece mais morta do que viva. E isso… eu nunca vou deixar você esquecer.
Marcelo não respondeu. Passou a mão pelo rosto e voltou a se sentar ao lado da cama.
Milena se afastou em silêncio. Cada palavra ecoava dentro dela, pesada demais para ser ignorada.
Baixou a cabeça e saiu do hospital, entendendo o que nunca quis admitir que fosse verdade.

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