O caminho até a sala da presidência nunca pareceu tão longo. Milena caminhava devagar, com a mochila pesando nos ombros. Ela parou diante da porta de madeira escura e respirou fundo antes de bater.
— Entre. — A voz grave atravessou a porta como uma ordem.
Milena abriu devagar. Marcelo De Valliére estava de pé, de costas, observando o campus pela parede de vidro. O terno impecável, a postura firme, o ar de alguém que nunca ouviu um “não” na vida. Quando ele se virou, o olhar frio a atingiu de cheio.
— Sente-se. — Ele disse sem expressão.
Milena obedeceu, tentando controlar as mãos trêmulas.
Marcelo se sentou também, cruzando os braços sobre o peito. Seus olhos percorreram a tela do computador por alguns segundos, antes de retornar a ela.
— Vou ir direto ao ponto. — Sua voz saiu baixa, porém firme. — Suas mensalidades estão atrasadas há meses. Quero saber quando vai decidir pagar?
Milena estremeceu, o que ela mais temia estava acontecendo.
— Senhor De Valliére... por favor não me expulse... eu...
Ele ergueu uma das mãos, pedindo silêncio.
— A minha universidade não é uma instituição de caridade. — disse, seco. — Se não pagar até o final da semana, você será desligada. Sem direito a recurso.
As palavras cortaram como faca. Milena se inclinou para a frente, desesperada.
— Por favor… eu estou tentando. Trabalho em dois lugares, cuido do meu pai sozinho, ele está muito doente… eu só preciso de mais tempo. Só isso. Eu não posso perder a faculdade. É tudo o que me faz ter esperança de sair dessa vida de miséria.
Marcelo a observou sem piscar, analisando cada tremor de vinha dela.
— Seu pai precisa de cuidados constantes, não? — Ele perguntou já sabendo a resposta.
Milena assentiu, a voz ficou presa na garganta.
— Sim.
— E você não tem condições de pagar médico, remédio… nem sequer o transporte que usa para vir até aqui.
Ela arregalou os olhos. Ele sabia demais para alguém que nunca teve contato direto com ela.
Marcelo apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos, inclinando-se um pouco para frente. O gesto, simples, aumentou a tensão no ar.
— Está claro que você não vai conseguir manter tudo sozinha. Quem me garante que conseguirá pagar as mensalidades atrasadas?
Milena apertou a barra da camiseta, tentando segurar as lágrimas, mas era inútil, elas ardiam em seus olhos sem permissão.
— O senhor quer dizer... que eu vou ser desligada?
Ele se levantou. A sala pareceu ficar menor.
— Quero dizer que existe uma forma de você resolver todos os seus problemas de uma vez.

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