As pessoas no corredor pararam em volta para ver. Enfermeiras gritaram. Alguém deixou uma bandeja cair. Alan, que passava, jogou a prancheta no chão e correu.
— Que isso... Marcelo?— gritou enquanto tentava passar pelas pessoas.
— Chamem o segurança...— falou uma voz histérica ao fundo.
Marcelo nem virou o rosto.
— Podem chamar a segurança, a polícia ou o Papa, se quiserem. — a voz saiu alta, firme, carregada de perigo e ameaça. — Mas ninguém vai me impedir de acabar com esse cara.
Caio estava no chão, atordoado, uma das mãos pressionando o rosto, os dedos já sujos de sangue.
— Porra, Marcelo! — cuspiu, tentando rir mesmo com a voz falhando. — Ficou louco?
Marcelo se colocou de pé sobre ele. O punho ainda fechado, a respiração pesada, os olhos frios. Não havia pressa. Nem dúvida.
— Louco? — ele riu, sem humor algum. — Você não faz ideia do que é me ver louco.
Alan avançou rápido e empurrou Marcelo alguns passos para trás.
— Se acalma, cara. — pediu, tenso, tentando manter a voz baixa.
Marcelo não respondeu. Ficou imóvel, encarando Caio enquanto ele se levantava com dificuldade, limpando o sangue que escorria pelo nariz e manchava a camisa.
Caio se apoiou na parede e sorriu torto.
— Parece que a sua vadiazinha resolveu fofocar sobre mim. — disse, desviando o olhar até Milena. — Você não disse que estava gostando, disse?
Milena se encolheu. O ar faltou. As lágrimas começaram a cair sem controle.
Marcelo percebeu o tremor no corpo dela. O medo antigo voltando aos olhos. Aquilo foi o suficiente. Ele empurrou Alan com força e partiu para cima de Caio. O impacto foi brutal. As costas de Caio bateram na parede com um estalo seco.
Marcelo o segurou pelo pescoço e apertou.
— Repete. — disse, baixo, colado ao rosto dele. — Repete... e eu te mato aqui mesmo.
O corredor estava em silêncio agora. Todos queriam saber o que fez Marcelo perder o controle dessa maneira.
Sirenes preencheram os 4 cantos dos corredores. Dois policiais atravessaram abrindo espaço entre funcionários, enfermeiras e curiosos.
Marcelo soltou Caio antes que alguém precisasse pedir.
Caio escorregou pela parede e caiu sentado no chão, tossindo, mão ainda no pescoço. Um dos policiais se aproximou rápido, enquanto o outro se posicionava entre Marcelo e ele.
— Senhor Marcelo De Valliére, o senhor está detido por agressão.— disse um deles, firme.
Marcelo assentiu sem resistência.
— Onde eu assino?
Milena sentiu o coração disparar. O impulso foi dar um passo à frente, mas ela parou quando sentiu a mão dele tocando seu pulso.
— Fica calma. Não vou deixar nada acontecer com você.— Marcelo disse e se voltou para o policial que tentava entender o ocorrido.
— A senhorita também vai precisar nos acompanhar.— falou o policial olhando para ela depois de ouvir uma breve explicação de Marcelo.
— Ela vai no carro comigo.— Marcelo respondeu antes que Milena dissesse qualquer coisa.
Caio, do outro lado da sala, não sustentou o olhar de ninguém. O clima mudou. O tom mudou. Ele acreditou que as câmeras dos depósitos estivessem quebradas. E estavam, mas naquela manhã Marcelo havia mandado trocar. E foi por causa das imagens que Caio permaneceu preso.
Minutos depois, Marcelo e Milena foram liberados. O caminho de volta ao hospital foi silencioso outra vez, todo o tempo ele a olhava com preocupação.
Quando desceram do carro, Milena sentiu os olhares. Alguns curiosos, outros chocados, outros julgadores. Cochichos surgiram, discretos, cortantes.
Mas morreram no instante em que Marcelo ergueu o olhar. Não precisou dizer nada.
Entraram um do lado do outro. Marcelo com sua postura imponente. E Milena segurando a alça da bolsa com os ombros caídos.
Assim que passaram pela porta principal, Marcelo se sentou em uma das cadeiras do saguão. Milena ficou parada por um segundo, sem saber exatamente o que fazer. O corpo ainda estava dolorido. A mente, pesada.
Marcelo desabotoou um botão da camisa se sentindo sufocado, em seguida estendeu a mão.
— Vem cá.
Milena se aproximou. Ele segurou a mão dela e a puxou devagar, com cuidado, até que ela se sentasse em suas pernas.
Marcelo afastou uma mecha de cabelo do rosto dela e colocou atrás da orelha. O toque foi firme, protetor. O olhar, decidido.
— Agora acabou.— disse, baixo.— Chega de esconder as coisas. Chega de fingir que está tudo bem, quando na verdade, não está.
Ela o encarou, o coração acelerado.
— Marcelo, eu...
— Agora.— interrompeu.— Já passou da hora de todo mundo saber.— Ele segurou o rosto dela entre as mãos. — Que você é minha mulher.

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