Milena não entendia o que ele tentava dizer.
— Algo pode ser destruído… — repetiu baixo. — O quê, exatamente?
Marcelo pousou a taça com cuidado excessivo sobre a mesa.
— Você não precisa saber disso.
A resposta curta não acalmou. Só apertou mais o nó no peito dela.
— Eu posso não ter convivido com pessoas do seu mundo, mas eu percebi, Marcelo. Ela falou de mim, como se eu estar ao seu lado, fosse algo que desafiasse alguém.
Ele a encarou de novo. O olhar duro, fechado.
— Entenda uma coisa, não importa o que ela disse. A única coisa que você precisa saber é que você está onde precisa estar.
— Precisa pra quem? — murmurou.
O silêncio voltou incômodo. Marcelo respirou fundo, se inclinou um pouco à frente. Mas antes dele responder, Milena continuou.
— Eu sei, que quando assinei o contrato, você disse que eu não faço perguntas. Mas o que tem de estranho querer saber algo que esteja relacionado a mim?
Marcelo apoiou o cotovelo na mesa, o olhar duro.
— Estranho seria se você achasse que conhece o mundo em que decidiu entrar, Milena. — disse. — Acredite, você não conhece. Esse lugar, essas pessoas... não são para você.
O garçom se aproximou, perguntando se desejavam sobremesa. Marcelo recusou com um gesto. Pediu a conta.
Milena observou enquanto ele assinava, firme, como se nada tivesse acontecido.
Ao se levantarem, ele voltou a entrelaçar os dedos nos dela. O toque era firme, controlado.
Do lado de fora, o ar da noite pareceu pesado demais. O carro já os aguardava. Marcelo abriu a porta para ela, esperou que entrasse e só então deu a volta.
Assim que a porta se fechou. O silêncio voltou, pesado demais para ser ignorado.
Milena apoiou a cabeça no encosto, sentindo o peso daquela noite cair de vez sobre os ombros.
— Por que com você é sempre assim? — perguntou, olhando para ele.
Marcelo se inclinou e puxou o cinto de segurança dela. Os rostos ficaram próximos o suficientes para o coração dela disparar.
— Assim como? — a voz dele roçou no rosto dela.
— Como se, a cada passo que eu dou na sua direção... você desse três para trás.
— Eu não sou alguém para se apegar, Milena. Já disse isso antes. O que temos não passa de um negócio.
Milena sentiu o aperto no peito e virou o rosto.
— Então por que, às vezes, você age como se não fosse só um negócio? — perguntou baixo. — Estávamos indo bem...
Marcelo demorou a responder. Ficou olhando para ela, mas Milena já não o encarava mais, ela abriu a janela e suspirou fundo. Ele apertou os dedos no volante, deu a partida e o carro seguiu em silêncio.
O carro seguiu pela estrada quase vazia. As luzes da cidade foram ficando para trás, rareando até desaparecerem de vez. Milena observava pela janela, sem saber para onde iam, sentindo apenas o cansaço daquela noite pesar nos ombros.
Marcelo dirigia em silêncio. As mãos firmes no volante, o olhar fixo à frente. Não havia pressa. Também não havia explicações.
Depois de alguns minutos, ele diminuiu a velocidade e encostou o carro no acostamento. O motor foi desligado. O silêncio se tornou absoluto.
— Onde estamos? — Milena perguntou, a voz baixa, mais curiosa do que desconfiada.

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