Milena despertou na madrugada e, ao se virar, percebeu que Marcelo não estava ali. O espaço vazio ao lado da cama parecia maior do que deveria. Ela respirou fundo, tentando ignorar a sensação incômoda que se instalava no peito.
Por mais que tentasse se convencer do contrário, a dúvida insistia em permanecer. Quanto tempo mais ela ainda estaria ao lado dele? Aquela ausência ao seu lado não era apenas física, era um lembrete silencioso de que nada ali lhe pertencia de verdade.
A cada dia que passava, mesmo diante das mudanças bruscas de humor de Marcelo e das regras que pareciam se reinventar conforme a vontade dele, algo dentro dela se rendia. Contra toda lógica, contra o contrato, contra a própria vontade, o coração de Milena já não sabia mais fingir indiferença. Ela estava apaixonada.
Era um sentimento novo, intenso e assustador. O primeiro e talvez o mais perigoso. Porque amar alguém como Marcelo, ainda mais nas circunstâncias que os aproximaram, significava caminhar em terreno instável, onde o chão podia desaparecer a qualquer instante.
Milena sabia que se continuasse se entregando daquela forma, em silêncio, sem garantias, sem promessas, sem respostas, o tombo seria inevitável. E quando viesse, não haveria contrato, dinheiro ou orgulho que a protegesse da dor.
Com um suspiro pesado levantou-se devagar. A garganta estava seca, mas sabia que não era só sede. Precisava sair daquele quarto. Precisava de alguns minutos longe daquela ausência de respostas, ausência dele.
Caminhou pelo corredor em silêncio, abraçada em seu próprio corpo olhando as inúmeras obras de artes que estavam expostas pela mansão. Os corredores eram extensos e intermináveis. Ela já estava a dias morando com ele, e ainda havia lugares que ela não conhecia.
Quando se preparava para voltar, algo chamou sua atenção. Um porta-retrato sobre a mesa lateral, com uma moldura dourada e bonita.
Milena se aproximou e o pegou com as mãos levemente trêmulas. O rosto da mulher no retrato era impecável. Ruiva. Elegante. O vestido tinha o mesmo tom, o mesmo corte que ela usou horas atrás. O colar de pérolas idêntico ao que Marcelo havia colocado nela. Os traços eram assustadoramente parecidos.
A diferença estava no olhar. Kethelyn transmitia frieza. Já Milena é simples e inocente demais para um mundo onde a bondade era sinônimo de fraqueza.
Olhando para a foto o peito dela se apertou.
— Então é você… — murmurou, quase sem voz. — Kethelyn Bettencourt...
O coração acelerou. Tudo começou a fazer sentido de uma vez só. Os comentários na faculdade. Os olhares tortos no hospital. As escolhas das roupas, lugares.
— Eu passei dias imaginando como você é… — continuou baixo. — Se eram somente boatos que somos parecidas. Uma coincidência cruel, talvez...— a voz falhou. — Mas não... cada traço seu, é igual ao meu.
Marcelo surgiu atrás dela sem fazer ruído. Parou a poucos passos, atento ao reflexo de Milena no vidro do porta-retrato. Não disse nada de imediato. Observou o jeito como os ombros dela estavam tensos, como a respiração saía curta.
Milena balançou a cabeça, como se organizasse pensamentos que machucavam demais.
— Não foi suficiente encontrar alguém parecida… — disse, com dificuldade. — Ele está tentando me transformar em você...
Marcelo respirou fundo antes de responder. Quando falou, a voz saiu fria, controlada, mas não cruel.
— Você está tirando conclusões precipitadas.
Ela se virou devagar. Os olhos estavam úmidos, mas ainda sim, havia uma firmeza desconhecida.
— Não estou. — respondeu baixo. — Eu já sabia que éramos parecidas. Mas nunca imaginei que você tentaria apagar quem eu sou para manter a presença dela viva.
O silêncio se estendeu entre os dois.

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