Milena permaneceu encostada na porta, o corpo rígido, a respiração irregular. Do outro lado, a voz de Marcelo voltou a soar, firme, controlada, mas carregada de algo que ela não soube identificar se era raiva ou urgência.
— Esse é meu quarto, Milena!— ele falou tentando fazê-la abrir.— Uma hora você terá que sair daí e me ouvir.
Ela fechou os olhos. A mão ainda segurava a maçaneta, como se parte dela estivesse pronta para ceder. Mas lutou contra seu próprio medo. Sabia que qualquer palavra dita naquele momento poderia virar outra arma contra ela mesma.
Marcelo permaneceu parado por longos minutos. O olhar fixo na madeira fechada, os punhos cerrados, a mente em turbulência. Ele caminhou até o escritório, como fazia sempre que precisava colocar a mente no lugar.
Com o silêncio do outro lado, Milena deslizou lentamente até o chão, sentando-se com as costas apoiadas na porta. Abraçou as pernas. As lágrimas vieram em silêncio. Era um choro cansado, de quem havia ultrapassado um limite que pensou jamais ter coragem de ultrapassar.
Quando o peso do cansaço venceu, deitou-se na cama, tentou dormir, mas o sono não vinha. A cama parecia desconfortável, o quarto silencioso demais para conter o caos dentro dela. Virava de um lado para o outro, enquanto o olhar frio de Marcelo vinha em sua mente cada vez que fechava o olho.
— Mas que droga...— ela resmungou frustrada.
Tudo ali fazia lembrar dele, o cheiro impregnado nos lençóis, a presença era marcante demais para ser ignorada. Com um suspiro, apertou o celular contra o peito e encarou o teto, inquieta.
— E se ele decidir me mandar embora? Ou pior... me castigar... me fazer devolver tudo que já gastou comigo...— murmurou.— Quer saber... não me arrependo. Só por que assinei aquele maldito de contrato, ele acha que pode me transformar em outra pessoa.
Já no escritório, Marcelo estava sentado na cadeira, cotovelos apoiados na mesa, mãos entrelaçadas diante do rosto. O cigarro no cinzeiro já havia se apagado, e o uísque sobre a mesa continuava intocado.
Encarou documentos que não leu, respondeu e-mails automaticamente, tomou café atrás de café sem sentir o gosto. Pensava na decepção no olhar de Milena. Isso o incomodava mais do que qualquer afronta direta.
E o pior de tudo, ele sabia que, em parte, ela estava certa. Ele estava a transformando em alguém que ela jamais seria.
Cansado, deitou no sofá do escritório e tentou desligar um pouco a mente. Mas seus pensamentos sempre voltavam para Milena.
Até que ele pegou o celular e ficou observando-a pela câmera do quarto cada movimento dela, cada murmúrio abafado, chegando a sorrir ao vê-la falar sozinha. Quando finalmente adormeceu, já era manhã.
Milena mal pregou os olhos. Acordou cedo, antes mesmo que o sol invadisse totalmente o quarto. Levantou-se em silêncio, tomando cuidado para não fazer ruído algum. Abriu o closet e, pela primeira vez desde que foi morar na mansão, ignorou completamente os vestidos e roupas elegantes escolhidos por ele.

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