Quando ele retornou, já era noite. Soube pelos funcionários que Milena havia chegado cedo e se recolhido. Decidiu não ir atrás. Preferiu respeitar essa distância que ela precisava. Foi direto para o quarto de hóspedes.
Na manhã seguinte, Milena despertou com a sensação estranha de não estar sozinha. Por um segundo, ainda sonolenta, virou o rosto esperando encontrar Marcelo ao seu lado.
Mas havia apenas o vazio. O lençol ao lado estava frio. Nenhum sinal de que ele tivesse passado por ali durante a noite. Aquilo a fez suspirar fundo.
Sentou-se na cama devagar, esfregando o rosto com as mãos. O silêncio da mansão era absoluto. Não havia vozes, nem o som distante do escritório em funcionamento.
Levantou-se e seguiu para o banheiro. Tomou um banho rápido e se arrumou. Ao sair do quarto, passou pelo corredor e lançou um olhar involuntário para o escritório.
A porta estava entreaberta, mas tudo lá dentro parecia exatamente como Ayla, a empregada, deixou no dia anterior.
— Ele ainda não chegou… — murmurou para si mesma.
Milena ajustou a bolsa no ombro e seguiu para fora da mansão. Hoje o dia era livre, então aproveitou para ficar com o pai, que já estava no apartamento. Fez o almoço e mostrou o que tinha aprendido no decorrer da semana. Álvaro estava orgulhoso da filha.
Na faculdade, o dia começou como qualquer outro. A rotina ajudava a manter a mente ocupada, afastando pensamentos que insistiam em surgir quando ela se permitia parar por mais de alguns segundos.
No meio da segunda aula, o professor interrompeu a explicação e pigarreou levemente.
— Antes de continuarmos, gostaria de apresentar um novo aluno. Ele entrou fora do período regular, por transferência. — apontou para a porta.
O murmúrio percorreu a sala no instante em que o rapaz entrou.
Ele era alto, tinha postura confiante e um sorriso fácil, daqueles que surgem sem esforço. Os cabelos castanhos estavam levemente bagunçados. Vestia-se bem, sem exagero. Chamava atenção de forma natural.
— Gregory. — disse o professor. — Pode se sentar ali no fundo, ao lado de Milena.
Milena observou sem muito interesse no início, até que sentiu o olhar dele cruzar o seu por um breve segundo. Gregory sorriu de forma educada antes de se sentar.
A aula seguiu normalmente, mas ao final, o professor chamou Milena.
— Você pode ajudá-lo a se situar no campus? Mostrar os prédios, secretaria, biblioteca… — pediu.— Você conhece bem a estrutura.
Ela hesitou por um instante, mas concordou
Gregory se aproximou assim que saíram da sala.
— Obrigado por isso. — disse ele. — Ainda estou meio perdido.
— É grande mesmo. — Milena respondeu, começando a andar. — Mas você se acostuma rápido.
Enquanto caminhavam, ele fazia perguntas inteligentes, demonstrando real interesse. Falava sobre a transferência, sobre as diferenças entre as instituições, sobre as matérias. Não era invasivo, nem forçado. Apenas agradável.
Milena se viu sorrindo algumas vezes sem perceber com uma leveza que a muito tempo não sentia.
— Então… — Gregory comentou, enquanto atravessavam o pátio. — Você sempre parece saber exatamente para onde está indo.
Ela riu de leve.
— Nem sempre. Mas finjo bem.
Ele riu junto.
Enquanto conversavam, Milena sentiu algo estranho. Uma pressão familiar no peito. Um arrepio que percorreu sua espinha sem aviso.

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