Bruno revirou os olhos e bufou, indignado.
— Não é certo brincar com os sentimentos das pessoas. Ela parece ser uma boa garota. E, se for como imagino, vai sair machucada. E isso não é justo com ela.
Marcelo manteve o olhar no centro do salão, onde Milena conversava com o avô dele.
O velho Olavo sorria genuinamente. Ela o escutava com respeito e afeto, inclinando-se levemente, como se estivesse diante de um homem que conhecia desde pequena.
Bruno fingiu uma tosse esperando uma explicação.
— Eu não estou brincando, Bruno. — disse, por fim, a voz rouca. — Ela é a única coisa que me faz esquecer o que eu realmente sou.
O silêncio que caiu sobre eles foi insuportável.
Sandro, que acompanhava a conversa em silêncio ao lado, pousou o copo lentamente e estreitou os olhos na direção de Milena. A expressão dele mudou, de curiosidade, confusão e depois, algo próximo do espanto.
— Olhando agora. Ela me lembra alguém… — murmurou, mais para si do que para os outros. — Há algo no olhar dela… no jeito…— Sandro fixou os olhos em Marcelo, e o mundo pareceu parar por um instante. — Ela não é… — ele engoliu seco, a voz quase falhando. — Você só pode estar louco, Marcelo. Louco!
Marcelo desviou o olhar imediatamente, mas o silêncio que se instalou foi resposta suficiente.
Bruno o fitou, surpreso, como se de repente entendesse tudo.
— Você não fez isso… — sussurrou. — Me diz que não é o que estou pensando.
Marcelo apertou o copo nas mãos, o maxilar rígido. A respiração ficou pesada.
— Eu não devo explicações a ninguém.
Bruno se levantou, a raiva misturada à incredulidade.
— Isso é insano. Se o que estou imaginando for real, você está prestes a destruir não só ela, mas a si mesmo.
Alan que chegou no momento do debate, colocou a mão sobre o ombro do amigo, tentando contê-lo.
Bruno estreitou o olhar e balançou a cabeça em negação.
— Você sabia todo esse tempo e não impediu ele de fazer essa merda, Alan?
— Vocês o conhecem melhor que ninguém. Ele estava decidido... eu não podia fazer nada.
Marcelo ouviu brevemente a conversa, mas já havia se afastado. O barulho das conversas e da música pareceu se dissolver ao redor.
Milena sentia o olhar dele mesmo de longe.
Era impossível ignorar Marcelo, ele dominava qualquer ambiente em que entrasse. Ainda assim, naquele momento, parecia distante, com um olhar que a desnudava e a temia ao mesmo tempo.
Ela não sabia o que se passava entre aqueles homens, mas sentiu o peso do clima mudar.
Mesmo assim, manteve o sorriso. Conversou com convidados, respondeu perguntas sobre a universidade, ouviu elogios sobre sua inteligência e elegância, mas por dentro, algo doía.
— Eu? Eu sou alguém que você deveria manter distância, Carlson.— Disse se inclinando levemente.— Tenho que admitir que é corajoso da sua parte, estar aqui, entre tantas pessoas que ainda choram pelo estado da minha irmã.
Os convidados formavam um círculo sutil ao redor do confronto, fingindo conversar enquanto seus olhares se desviavam para as duas.
Milena estava sentindo cada partícula do seu corpo tremer. Assim que Katherine confirmou a ligação dela com a noiva de Marcelo, sabia que as coisas não seriam fáceis, que a provocação iria aumentar, não importava como ela respondesse.
Marcelo estava visivelmente tenso, rodeado de jornalista, os punhos cerrados dentro dos bolsos do smoking.
Katherine sorria com soberba.
O silêncio que se seguiu foi cruel. Milena sentiu o coração acelerar, um tambor surdo contra as costelas, mas ergueu o queixo, mantendo a postura de quem já havia enfrentado tempestades piores.
Marcelo deu um passo à frente, disposto a atravessar o salão e defendê-la, mas parou ao vê-la dar um aceno dizendo que estava tudo sob controle. Seus olhos se encontraram por um instante, um flash de cumplicidade que ninguém mais notou.
— Já ouvi falar muitas coisas boas sobre Kethelyn. Acredito que sua irmã não gostaria que ninguém vivesse preso ao passado. — respondeu Milena com elegância, a voz firme como o salto alto que pisava no mármore polido.
— Quanta coragem, não é? Mas deixa eu te contar um segredo. Eu sei exatamente o quanto estar aqui, no meio de tanta gente importante, está sendo difícil.
— Sabe que não está tão difícil assim. E quanto à coragem, aprendi com alguém que admiro muito, que é melhor enfrentar o mundo de frente do que se esconder atrás de um sobrenome.
Katherine sorriu, com desprezo, os lábios pintados de vermelho escuro curvando-se em uma linha fina.
— Confesso que você é realmente perfeita para estar ao lado dele. Linda e obediente... — disse com um sorriso frio, observando-a dos pés à cabeça. — Foi moldada com perfeição.

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