Marcelo a observou em silêncio por alguns segundos, e então soltou uma risada baixa, rouca, que misturava incredulidade e desejo contido.
— Por que sinto que está com raiva, Milena?
Ela o encarou, sem desviar.
— Eu não estou com raiva, Marcelo. Eu estou com medo.— respirou fundo antes de continuar. — Assustada por estar aqui, num mundo que eu nunca quis. Sendo humilhada por uma desconhecida, que me odeia por você ter me escolhido para fingir ser sua noiva.
As palavras saíram num sussurro carregado.
— E também, não importa o quanto eu tente me encaixar em suas regras, na sua vida, sempre vou ser alguém descartável. Uma substituta que trocou a própria dignidade por dinheiro.
O riso dele foi desaparecendo em cada palavra.
— Não diga isso.— Ele falou tentando tocar no rosto dela numa tentativa de acalmá-la.
— É a verdade. — A voz dela falhou, mas não recuou. — Você acha que pode me acalmar, Marcelo, mas não pode. Eu sempre fingi que estava tudo, pois achava que essa era a minha obrigação... porque fui eu quem aceitou sua proposta.
Marcelo desviou os olhos, travou o maxilar e voltou a encará-la
— Você se arrependeu? É isso. — perguntou.
— Para falar bem a verdade... nunca me arrependi tanto de algo, como agora. Principalmente me arrependi de mesmo você jogando na minha cara que o que temos é só um negócio. Não consegui evitar de me apaixonar. — confessou sentindo um alívio momentâneo.
Marcelo respirou fundo, seus ombros cada vez mais tensos.
— E se eu te dissesse que eu também me perdi nesse acordo? Que todas as vezes que te afastei, foi porque não sei como não te machucar?
Milena desviou o olhar, dando um passo para trás, como se não estivesse acreditando no que ouviu.
— Isso não muda o fato de que Katherine está certa. Eu sempre serei uma sombra. Não sou eu quem você queria ao seu lado. E quando ela acordar… você vai me tirar da sua vida como quem descarta uma roupa velha.
Ele a segurou pelo braço, sem força, apenas o suficiente para que ela o olhasse.
— Muda, sim. — O tom era firme, intenso. — Porque sempre que eu te olhei nos olhos eu via você. Nunca foi porque Kethelyn está em coma.
Ela piscou devagar, tentando decifrar o que havia por trás das palavras. Um sorriso quase sarcástico surgiu em seus lábios.
— Então por que foi?— ela perguntou levantando a cabeça.
Ele mordeu o interior dos lábios.
— Isso eu não posso dizer.
— Não?— resmungou baixinho.— Então me diz, Marcelo. O que eu sou pra você?
Ele demorou para responder. As palavras pareciam pesadas demais.
— Alguém que me lembra que ainda existe verdade em meio a tanta mentira e traição.
Milena apertou os lábios em uma linha fina.
— Acho que não.
Marcelo caminhou de mãos dadas com ela e abriu a porta. Estranhou porque não havia ninguém no corredor. Apenas uma caixa média, parda, sem remetente.
Ele se abaixou lentamente.
— O que é isso.
Marcelo permaneceu imóvel, o coração acelerado demais para responder.
Quando ele abriu a tampa, o mundo pareceu girar. Nela tinha um vestido.
O mesmo vestido claro, manchado de sangue escurecido pelo tempo. O que sua mãe usava na noite em que morreu.
A caixa escorregou de suas mãos e caiu no chão com um baque seco. Milena levou a mão à boca, sem conseguir reagir.
— Meu Deus… de quem é esse vestido? — a voz de Milena saiu trêmula.
Marcelo ficou pálido, suas mãos tremeram ligeiramente. Ao segurar o tecido, encontrou um bilhete dobrado. Antes que Milena pegasse para ler. Marcelo apertou o papel e se afastou alguns passos dela para poder ler.
"Afaste-se dela. Ou vai perder mais do que já perdeu."
Marcelo fechou os olhos por um segundo. Ele não precisava de assinatura para saber exatamente quem havia enviado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contrato de Barriga de Aluguel para o Bilionário