Na manhã seguinte Milena se mexeu devagar, os lençóis ainda quentes, o corpo envolto em uma preguiça boa, passou a mão na cama e percebeu que estava sozinha.
— Que pena... ele já foi.— sussurrou com um suspiro lento.
Levantou-se, ao ouvir um barulho no andar de baixo, fez um coque simples no cabelo e caminhou até a cozinha.
Assim que desceu. Ela parou por um instante, ao ver que ele ainda estava na casa. Ela ficou um momento em silêncio, tentando conter o sorriso que insistia em surgir ao ver a bagunça que ele estava fazendo.
Marcelo estava descalço, o cabelo bagunçado, sem camisa, apenas com uma calça de moletom. Mexia o café distraidamente, quando sentiu a presença dela.
— Bom dia, dorminhoca. — murmurou ele, sem olhá-la, a voz rouca, calma demais para o homem que ela conhecia.
— Bom dia... — respondeu, ainda sem acreditar no que via. — Você... cozinhando?
Ele se virou. Havia um leve cansaço no rosto, mas ainda sim, sorria.
— Fiz café, ovos e bacon. — disse, colocando uma xícara à frente dela. — Achei que ia gostar.
Milena o observava, com o coração em desalinho.
Ele se sentou à mesa, cruzou as pernas e, por um instante, apenas ficou ali, olhando-a.
— Está me olhando assim por quê? — ela perguntou, com um riso tímido, tentando esconder o nervosismo que a dominava.
Ele apoiou o queixo na mão, os olhos percorrendo cada detalhe do rosto dela.
— Porque nunca tinha reparado o quanto você é linda quando acorda. — respondeu baixo, sem hesitar. — E você, por que está com esse sorriso?
Milena desviou o olhar, e suspirou fundo.
— Porque não imaginei que estar com você seria assim.— confessou. — Te ver aqui, tão... sem aquela necessidade de mandar em tudo. Sempre olhando para o relógio como se algo ruim fosse acontecer. E ainda mais cozinhando. — ela desviou o olhar por um instante.— Me acostumaria facilmente com isso...
Marcelo se inclinou ligeiramente para frente, o olhar fixo nela.
— Então pode começar a se acostumar. Essa é uma versão que poucos conhecem de mim. — disse, a voz grave, arranhando de leve o ar.
Milena riu, um sorriso que chegou em seus olhos. O silêncio que se seguiu enquanto comiam era reconfortante. Eles se olhavam a todo tempo, admirando cada um de uma forma diferente.
Ela tomou um gole de café enquanto pensava:
"Será que para Kethelyn ele fazia isso?"
Marcelo se levantou e, ao passar por trás dela, inclinou-se, deixando um beijo breve na curva do pescoço. O toque foi leve, mas percorreu-lhe a pele como um arrepio doce, fazendo-a fechar os olhos por um instante.
— Tenho reunião à tarde, mas volto cedo. — murmurou, encostando a testa na dela. — Prometo.
Milena virou-se devagar, os olhos encontrando os dele. Por um segundo, nenhum dos dois disse nada. Ela ergueu a mão e pousou-a na nuca dele, puxando-o suavemente para um beijo calmo, terno.
Marcelo a envolveu pela cintura, aproximando-a do corpo, e Milena se deixou ficar, sentindo o coração bater descompassado contra o peito dele em um abraço.
Quando se separaram, ela manteve o olhar preso ao dele.
Ele sorriu, passando o polegar de leve em seu queixo.
— Mas sabe o que ela odiaria mais ainda? — murmurou, com um brilho gélido no olhar. — Seria saber que Marcelo não vem aqui há semanas. — O silêncio se instalou como uma lâmina. — Marcelo parece que foi possuído. — continuou, passando o batom nos lábios pálidos de Kethelyn. —Lembra o que ele dizia? Que nunca mais seria feliz sem ela? Pois é... parece que esqueceu.
A mãe ergueu os olhos, confusa.
— Isso é bom, não? Ele sofreu tanto por causa do que aconteceu.
— Não é. — respondeu, fria. — Ele está sorrindo por outra pessoa, mãe. — Parou por um instante, encarando o rosto da irmã, e completou num sussurro: — Você ouviu, Kethelyn? Ele encontrou alguém. Está encantado por ela. Uma menina simples, que a única coisa de interessante que tem é ser parecida com você.
— Ele realmente está com alguém?— Carmem perguntou.— Ouvi hoje pelos corredores do hospital, mas não queria acreditar.
Katherine fechou as mãos em punho com raiva.
— Está ouvindo "Thel" , todos acham que ela é o novo amor dele.
O monitor aumentou o ritmo. E por um breve momento, o dedo anelar de Kethelyn se moveu. Um gesto quase imperceptível, mas que não passou despercebido.
Katherine parou de respirar. Olhou fixamente para a mão da irmã, o movimento cessou.
A mãe arregalou os olhos levando a mão na boca, surpresa.
— Kath! — exclamou, a voz quebrando pela emoção. — Ela... ela se mexeu! Eu vou chamar um médico.
Enquanto Carmem corria chamar alguém, Katharine se inclinou, colando os lábios ao ouvido de Kethelyn.
— Isso mesmo. Acorda. Acorda e vem me ajudar a destruir o contos de fadas daquela vagabunda.

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