A chuva engrossou de repente, como se o céu tivesse decidido desabar junto com tudo o que eles estavam segurando.
Milena sentiu a água escorrer pelos cabelos, o vestido já colando ao corpo, mas não se moveu. O olhar ainda estava preso no dele, naquela frase que ecoava dentro do peito: o contrato já não existe mais.
Ela respirou fundo, mas havia algo que ainda que não podia ser ignorado.
— Então me explica o beijo, a foto. — disse, enfim.
Marcelo piscou, confuso.
— Que beijo? Que foto?
Milena soltou uma risada curta, sem humor. Pegou o celular da bolsa com mãos trêmulas, desbloqueou a tela e virou o aparelho para ele.
— Essa.
Marcelo olhou. Bastou um segundo, o maxilar dele travou. Os dedos se fecharam com força ao lado do corpo dela, tão tensos que os nós dos dedos ficaram brancos.
— De onde veio essa foto… — ele murmurou, a voz carregada.
— Katherine me mandou. — Milena continuou, firme, apesar do nó na garganta. — Justo depois de dizer que você havia se cansado de mim. Que tudo o que vivemos era temporário. E que você havia escolhido ela.
A chuva batia mais forte agora, estalando no asfalto, no teto dos carros, nos ombros deles.
Marcelo passou a mão pelo cabelo molhado, respirando fundo, como quem luta para não perder o controle.
— Milena, isso é mentira. — disse, sério. — Essa foto foi tirada fora de contexto. Katherine nunca me beijou.
— Então como me explica isso? — ela rebateu.
Ele deu um passo à frente.
— Eu sei que é difícil de acreditar. Eu mesmo se não soubesse de como aconteceu, duvidaria da minha palavra. E é por isso que você precisa ver uma coisa.
Sem esperar resposta, ele segurou a mão dela com cuidado e a conduziu até o carro. Abriu a porta do passageiro, protegendo-a da chuva com o próprio corpo.
— Entra.
Ela hesitou apenas um segundo, depois obedeceu.
Marcelo entrou do outro lado, fechou as portas e o som da chuva ficou abafado, distante, como se o mundo tivesse sido colocado em pausa.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Pegou o blazer e colocou sobre os ombros dela.
— Não tira. Está frio.— disse com um olhar preocupado.
Então ele se virou, esticou o braço para o banco de trás e pegou o tablet que sempre carregava consigo. Desbloqueou a tela com rapidez e virou para ela.
— Assiste.
Milena franziu o cenho.
— O que é isso?
— A verdade.
Ele apertou o play. A imagem mostrou o interior do escritório dele. O ângulo era fixo, claramente de uma câmera de segurança. O som estava limpo.
Katherine apareceu na tela, parada diante da mesa de Marcelo. Estava irritada, gesticulando demais.
— Você não pode simplesmente acabar com tudo assim! — a voz dela saiu alta, histérica. — Tirar meus contratos, meus trabalhos, me bloquear de todos os estúdios!
Marcelo apareceu em seguida, encostado na mesa, postura rígida, braços cruzados.
— Posso e fiz. — respondeu, frio. — Eu avisei. Você cruzou uma linha que era proibida.
— Sei exatamente. — Marcelo rebateu. — Nunca me interessaria por alguém capaz de se declarar pra mim enquanto a própria irmã está em coma.
Foi então que Katherine perdeu o controle, ela avançou de repente, tentando beijá-lo. Mas Marcelo reagiu no mesmo instante. Empurrou Katherine com força suficiente para afastá-la.
— Não encosta em mim. — disse ele, duro. — Nunca mais.
O vídeo terminou ali. O silêncio dentro do carro ficou pesado. Milena sentia o coração bater tão forte que parecia ecoar no vidro.
Marcelo desligou o tablet e o colocou no banco de trás. Virou-se para ela devagar.
— Eu nunca te traí. — disse, firme. — Nunca dei margem. E nunca vou dar.
Milena respirou fundo, tentando organizar tudo o que sentia. Vergonha por ter acreditado na foto. Alívio por não ser verdade. Medo. Amor.
— Eu… — a voz falhou. — Não queria desconfiar de você. Mas tudo parecia se repetir. As ameaças. As coisas que ela dizia me fazia acreditar no contrato...
Marcelo estendeu a mão e segurou o rosto dela com cuidado.
— Eu falhei em te proteger disso. — admitiu. — Mas não falhei em te amar.
As lágrimas escorreram livres agora.
— Você realmente me ama?— perguntou com os olhos presos nos dele.
— Eu amo, Milena. Do meu jeito torto, mas eu te amo.
— Desculpa... ter sido tão imatura. Eu só tinha medo de tudo tornar um completo pesadelo. — ela confessou.
Marcelo encostou a testa na dela.
— Você nunca foi só isso. — murmurou. — E eles são nossos. Ninguém vai mudar isso.

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