Milena sentiu o peso das palavras dele se assentarem devagar dentro do peito. Naquele momento ela entendeu que ninguém vai mudar o que eles têm.
Um sorriso pequeno nasceu no canto dos lábios dela, tímido, quase inseguro.
O olhar dele suavizou ao perceber. Levantou a mão devagar e acariciou o rosto dela com o dorso dos dedos. Milena fechou os olhos por um segundo, inclinando o rosto contra a mão dele, buscando mais daquele gesto simples que dizia tanto.
— Você fica linda sorrindo. — murmurou ele, baixo.
Ela abriu os olhos e encontrou os dele.
Marcelo se inclinou apenas o suficiente para tocar os lábios nos dela. Um beijo delicado, sem pressa. Milena sentiu o coração desacelerar.
Quando se afastaram, Marcelo foi o primeiro a franzir o cenho.
— Precisamos ir embora agora. Você está molhada e gelada. — constatou, passando a mão pelo braço dela. — Vai ficar doente desse jeito.
Ele ligou o carro, ajustou o ar quente e saiu devagar. A chuva ainda caía forte do lado de fora, mas dentro do veículo havia um silêncio confortável. Uma música calma começou a tocar, baixa, quase como um sussurro de fundo.
Marcelo estendeu a mão direita e entrelaçou os dedos nos dela, mantendo a esquerda firme no volante. De vez em quando, desviava o olhar da estrada apenas para observá-la. O jeito como Milena encostava a cabeça no banco, os olhos fechados, respirando com mais calma agora.
Ela sentiu sua pele queimar com o olhar dele.
— Por que está me olhando assim? — perguntou, sem abrir os olhos.
— Porque eu quero guardar isso. — respondeu ele. — Você aqui comigo, sem aquele silêncio que nos rondava.
— Eu também...— Ela murmurou.
Assim que o carro parou, Marcelo desceu primeiro e foi direto até a porta do passageiro.
— Marcelo… — ela riu, já prevendo.
Ele correspondeu o sorriso e a pegou no colo com uma delicadeza quase solene.
— Eu consigo andar, sabia? — ela brincou, apoiando uma mão no ombro dele.
— Eu sei. — Ele respondeu, firme, mas com ternura. — Mas hoje não é sobre o que você consegue. É sobre o que eu vou fazer por você.
Milena o encarou e suspirou. Ela encostou a cabeça no ombro dele e sentiu aquela segurança que tanto precisava.
No quarto, ele a colocou no chão com delicadeza. Ajudou-a a sentar na beira da cama, ajoelhou-se diante dela e, sem dizer nada, inclinou-se para beijar sua barriga ainda discreta.
O gesto foi tão inesperado que Milena levou a mão à boca.
— Escutem aqui… — Marcelo falou baixo, a mão repousando com carinho sobre o ventre dela. — Nada de judiar da mamãe. Nada de sustos desnecessários. Combinado?
Milena riu entre lágrimas.
— Eles ainda nem sabem ouvir… — murmurou.
— Sabem sim. — Ele respondeu, sério.
Levantou-se devagar e segurou o rosto dela com as duas mãos. O beijo que veio depois foi lento, profundo, cheio de promessa. Quando se afastou, encostou a testa na dela.
— Vamos tirar essa roupa molhada.
No banheiro, o vapor começou a subir assim que Marcelo ligou o chuveiro. Ele ajudou Milena a se despir com cuidado, cada gesto respeitoso, atento. Depois tirou a própria roupa e entrou com ela debaixo da água quente, puxando-a para perto.
Milena suspirou quando sentiu o calor relaxar os músculos tensos. Aquela ansiedade, aquele medo foi diminuindo.
Marcelo a envolveu com os braços, apoiando o queixo sobre a cabeça dela.
— Não precisa ter medo do futuro. Eu sempre estarei aqui.
Apoiou a bandeja na mesa de cabeceira e se inclinou devagar, tocando um beijo leve na testa dela.
— Amor… — chamou baixo.
Milena se mexeu e franziu levemente a testa. Abriu os olhos devagar e, ainda confusa, encontrou os dele tão próximos.
— Nossa, eu acabei dormindo… — murmurou, a voz rouca de sono.— Me desculpa.
— Não precisa se desculpar. — ele respondeu com um sorriso pequeno. — Trouxe comida.
Ele a ajudou a se sentar com cuidado, ajeitando os travesseiros atrás de suas costas antes de puxar a bandeja para mais perto. Assim que o cheiro chegou mais forte, Milena fechou os olhos por um instante.
Marcelo pegou o garfo, enrolou um pouco de macarrão com calma e levou até perto da boca dela.
Milena travou por um segundo. O gesto era simples, mas a desarmava completamente. Ser cuidada daquela forma era estranho. E, ao mesmo tempo, absurdamente bom.
Ela olhou do garfo para os olhos atentos de Marcelo.
— Você não precisa fazer isso… — começou.
— Eu sei. Mas eu quero. — ele interrompeu, sem dureza. — Abre a boca.
Milena hesitou mais um instante antes de obedecer. Quando o sabor familiar tocou a língua, ela suspirou.
— Está muito bom… — admitiu.
Marcelo sorriu satisfeito e preparou outra garfada.
Ela mastigava devagar, observando-o.
— Então é essa a sensação de ser amada?— ela murmura encarando seus olhos.

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