Milena estava deitada na maca, o rosto pálido contrastando com o lençol branco. O monitor cardíaco marcava um ritmo acelerado demais para quem tentava aparentar calma. A médica falava baixo, explicando cada procedimento enquanto ajustava os sensores sobre a barriga.
A mão de Marcelo segurava a dela com força controlada, como se soltá-la fosse permitir que algo pior acontecesse. Ele respondia às perguntas dos médicos de forma objetiva, sem emoção visível, mas por dentro tudo gritava.
— A pressão dela está um pouco elevada, doutor.— comentou a médica. — Nada alarmante, mas vamos observar.
Milena assentiu em silêncio. O ultrassom começou, a imagem surgindo na tela. Quatro movimentos pequenos. Marcelo soltou o ar devagar ao ver aquilo novamente. Estavam todos bem.
Foi nesse instante que o celular vibrou no bolso da calça. Marcelo sentiu um incômodo estranho, um aviso antigo que nunca o abandonava. Retirou o aparelho devagar e olhou a tela.
Número restrito. O maxilar se fechou automaticamente. Por um segundo, pensou em ignorar. Nada naquele dia merecia mais espaço do que Milena e os bebês. Mas o telefone vibrou outra vez, insistente.
Ele ergueu o olhar para Milena. Ela percebeu o movimento, viu a tensão se formar no rosto dele.
— Atende… — disse baixo. — pode ser importante.
Marcelo levantou e ficou um pouco distante, ele hesitou apenas um segundo antes de deslizar o dedo pela tela.
— Fala. — a voz saiu firme, mas carregada de algo mais escuro.
Do outro lado da linha, o silêncio durou o tempo exato de provocar desconforto. Então a voz feminina surgiu, baixa, arrastada, carregada de intenção.
— Me diz, querido. Gostou do recado?
O corpo de Marcelo reagiu antes da mente. A mão livre se estendeu até a parede mais próxima, os dedos se abrindo e as unhas cravando na superfície fria. Ele precisava daquilo para não perder o controle.
— Você realmente está por trás disso? — perguntou, sem elevar o tom.
— Adivinha. — provocou.
Marcelo travou o maxilar com raiva.
— E eu avisei para não fazer nada com ela.
A mulher soltou uma risada curta, sem humor.
— Sempre tão dramático, Marcelo. — disse. — Eu só quis lembrar que você não manda em tudo.
Ele respirou fundo, controlando cada batida do coração.
— Sempre deixei claro que ela é meu limite. — falou devagar. — Faz o que quiser comigo. Com meu nome, meus negócios, minha vida. Mas com ela, ninguém mexe. Ninguém.
Do outro lado, o silêncio voltou, mais pesado.
— Não me ameace. — a voz respondeu, agora mais fria. — Você esquece com quem está falando?
Marcelo fechou os olhos por um segundo.
— Não. — disse. — Eu lembro todos os dias.
Milena observava a expressão dele mudar. Não ouvia as palavras, mas reconhecia aquela rigidez. Algo naquela ligação estava muito errado.
— Eu precisava te lembrar, Marcelo. Você continua insistindo nesse erro. — a mulher prosseguiu. — Não importa quantas vezes eu diga, quantas vezes eu deixe claro… eu nunca vou aceitar Milena com você.
Marcelo abriu os olhos de novo. O olhar estava duro, perigoso.
— Você não tem mais esse direito. — rosnou.
A risada veio novamente, dessa vez mais baixa.

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