Milena já estava com quase oito meses de gravidez, e o corpo começava a denunciar cada dia que passava. Os pés inchavam com facilidade, as costas reclamavam no fim da tarde, e os bebês pareciam disputar espaço dentro dela com chutes firmes e impacientes.
Ainda assim, a sensação de estar sendo observada nunca a abandonava. Havia dias em que ela se sentia ridícula por isso.
Milena subiu algumas vezes até o terceiro andar da mansão, quase sempre sozinha. O corredor silencioso, a porta sempre fechada, as flores frescas trocadas religiosamente, como Marcelo havia determinado aos empregados.
O quadro pintado pela mãe de Marcelo ainda ocupava o mesmo lugar na parede, um campo florido sob um céu suave, pinceladas delicadas que carregavam uma paz quase dolorosa. Milena sempre sentia um aperto no peito ao observá-lo. Havia amor ali, mas também havia perda.
Marcelo estava mais calmo, a sombra de Sabrina havia desaparecido. Nenhuma ameaça, nenhum recado velado, nenhum rosto estranho surgindo nos corredores do hospital. Katherine também não deu mais sinais de vida. Era como se, de repente, a paz tivesse finalmente reinado.
Naquele dia ele chegou mais cedo do que o habitual. Milena estava sentada na cama, folheando distraidamente um livro de nomes para os filhos, quando ouviu passos se aproximando pelo corredor.
— Amor? — ele chamou, a voz suave.
Ela sorriu antes de responder.
— Aqui.
Marcelo surgiu à porta segurando uma grande sacola. O olhar dele percorreu Milena com carinho, demorando-se na curva da barriga, no rosto cansado, mas sereno.
— Trouxe uma coisa pra você.
— Outra? — ela brincou, arqueando a sobrancelha. — Por que foi gastar comigo? Você vai me mimar demais desse jeito.
Ele aproximou-se sem dizer nada, colocou a sacola sobre a cama e, antes que ela pudesse abrir, envolveu-a por trás. O abraço foi firme, cuidadoso, como se temesse apertar demais.
— Não precisa de motivo pra presentear a mulher que eu amo. — murmurou junto ao ouvido dela.
Milena fechou os olhos por um instante, permitindo-se sentir aquele momento simples, íntimo.
— Mas… — ele continuou, com um sorriso discreto — confesso que hoje tem um pequeno motivo.
— Qual? — ela perguntou, curiosa.
— Nós vamos sair. — Ele afastou-se só o suficiente para olhar nos olhos dela. — E eu sei que a maioria das suas roupas já não está tão confortável assim.
Ela piscou, surpresa.
— Sair? Marcelo, eu… eu nem sei se…
— Você não sai desde tudo o que aconteceu. — ele a interrompeu com delicadeza. — E eu acho que você merece um pouco de normalidade fora dos portões dessa casa.
Milena hesitou por um segundo. O medo ainda estava ali, escondido em algum lugar do peito. Mas a vontade de respirar fora daquelas paredes, falou mais alto.
— Tá bom. — ela disse, finalmente, com um sorriso tímido. — Onde vamos?
— Hoje é o aniversário Thomas.
Ela puxou a sacola e abriu com cuidado. O vestido claro surgiu diante de seus olhos, leve, soltinho, com um tecido que parecia dançar só de ser tocado. Exatamente como ela gostava.
— Amor… — a voz dela falhou um pouco. — É lindo.
— Vai ficar ainda mais em você.
Ela se levantou devagar, animada como não se sentia há semanas.

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