Milena paralisou por um momento.
— Aqui? — perguntou.
— Temporariamente. — Marcelo apressou-se em explicar. — Até ela se adaptar, ou até conseguirmos organizar tudo. Eu não vou abandonar ela. Mas… — a voz falhou por um segundo — eu também não quero fazer nada sem você.
Milena retirou uma das mãos e a levou instintivamente à barriga.
— Marcelo… — começou, mas parou.
Ele observava cada microexpressão dela. O conflito era visível. A bondade lutando com o medo. O amor tentando ser maior do que a insegurança.
— Eu sei que não é fácil pedir isso agora. — ele continuou. — Ainda mais com você grávida. Mas eu juro que vou fazer tudo para te proteger. Para proteger nossos filhos.
Ela respirou fundo.
— Eu nunca quis que você abandonasse ninguém — disse, por fim. — Só… não quero ser colocada em segundo plano.
A frase doeu mais do que qualquer acusação.
— Você nunca vai ser. — Marcelo respondeu rapidamente.
Milena ficou em silêncio por mais alguns segundos. Depois, assentiu de leve.
— Se for por um tempo… — disse. — Se for realmente necessário… eu aceito.
Marcelo assentiu.
— Obrigado.
Ela sorriu, mas era um sorriso frágil.
— Só me promete que isso não vai destruir a nossa família antes mesmo dela nascer.
Ele se inclinou e a abraçou com cuidado, sentindo o coração dela bater rápido contra o próprio peito.
— Eu vou fazer de tudo para que isso não aconteça.
Enquanto isso, em outro lugar da cidade, Kethelyn observava o próprio reflexo no espelho do hospital. O sorriso não alcançava os olhos, mas existia.
Katherine entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
— Preparada, irmã? — perguntou com um sorriso.
Kethelyn assentiu devagar.
— Com certeza. Quero ver até quando aquela substituta vai ocupar o meu lugar.
Katherine sorriu.
— Muito bem. Então agora é só não colocar tudo a perder. Milena está frágil e não pode ficar nervosa... se é que você me entende.
Kethelyn inclinou a cabeça, os olhos brilhando.
— Entendo muito bem. Não se preocupe. — murmurou. — Gravidez avançada… saúde frágil… tudo tem seu momento certo.
Katherine se aproximou, passando os dedos nos lábios da irmã.
— Tira esse batom. Não esqueça que você está doente e sofrendo. Você sabe que Marcelo é inteligente, é difícil enganar ele. Você tem que aproveitar o máximo desse tempo para balançar essa relação. Marcelo só aceitou te levar para a mansão por causa da ameaça.
Marcelo estacionou em frente ao hospital com o estômago revirado. Ficou alguns segundos com as mãos apoiadas no volante, respirando fundo, como se precisasse reunir forças para atravessar aquelas portas outra vez.
Não era medo de ficar perto de Kethelyn. Era culpa. E a sensação sufocante de estar escondendo coisas demais da Milena.
Quando finalmente entrou, encontrou Katherine no corredor, empurrando uma cadeira de rodas.
Kethelyn estava sentada nela, os lábios pálidos, quase sem cor. Os ombros encolhidos, o corpo envolto em uma manta As mãos descansavam no colo, frágeis, imóveis. Os olhos se ergueram assim que o viram.
Um sorriso lento surgiu.
A frase pareceu simples demais. Mas havia algo ali, uma ponta invisível.
— Fico feliz em te conhecer… — continuou Kethelyn. — Embora não seja exatamente da forma que eu imaginei voltar pra cá.
Ela suspirou, levando a mão ao peito, como se o esforço de falar fosse grande demais.
Milena sorriu, tensa.
— Seja bem-vinda. — disse. — Se precisar de qualquer coisa…
— Obrigada. — interrompeu Kethelyn com doçura. — Mas acho que agora eu só preciso do Marcelo e de descansar.
Ela virou o rosto lentamente para Marcelo.
— Queria ir para o meu quarto.
Milena baixou a cabeça incapaz de encarar aquela cena.
Marcelo respirou fundo antes de responder Kethelyn.
— Não existe mais quarto seu aqui, Kethelyn. — disse com cuidado. — Nada do passado. A gente vai improvisar um quarto. Já pedi pra adaptarem tudo.
Por um instante, algo duro passou pelo olhar dela. Sumiu rápido demais para parecer real.
Ela abaixou o olhar, os dedos se fechando na manta sobre as pernas.
— Achei que… depois de tudo… talvez você tivesse guardado algo. — disse baixo. — Mas tudo bem. Eu me acostumo.
Cada palavra atravessou Milena como uma agulha. A sensação incômoda de estar ocupando um lugar que nunca fora seu apertou o peito.
Kethelyn respirou fundo e ergueu os braços na direção de Marcelo.
— Só tem um problema… — falou, com um sorriso cansado. — Não consigo subir sozinha. Você vai ter que me carregar até lá em cima.

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