Marcelo não se moveu. O silêncio que caiu foi pesado, constrangedor. Ele a encarou por alguns segundos. Seu olhar tinha uma frieza controlada que fez o sorriso ensaiado de Kethelyn vacilar.
— Não vai precisar. — disse, sem elevar a voz. — O seu quarto é no andar de baixo e mesmo se fosse lá em cima, tem o elevador.
Os olhos dela se arregalaram por um instante, surpresa demais para disfarçar. O brilho de fragilidade se perdeu.
Marcelo deu um passo para o lado. A mão dele tocou a cintura de Milena, firme, quente. Um gesto simples, mas cheio de significado. Ele a puxou devagar para mais perto. O rosto que antes estava rígido suavizou quando ele baixou o olhar para ela.
Milena ergueu os olhos e encontrou os dele e pela primeira vez desde que Kethelyn atravessou aquela porta, algo dentro dela se aquietou.
Marcelo voltou a olhar para Kethelyn.
— Para você ficar aqui, Kethelyn, precisa entender uma coisa desde já. Milena é a minha prioridade. Para mim, não importa nada além dela e meus filhos.
Ele não piscou.
— Cada canto dessa casa é dela. — acrescentou. — Se precisar mudar qualquer coisa, adaptar qualquer espaço, você fala com ela. Sempre.
O maxilar de Kethelyn travou de raiva. Por baixo da manta, os dedos se fecharam com força contra a própria perna, beliscando a pele, fazendo seus olhos se encheram de lágrimas.
— Por que você me trata com tanta frieza, Marcelo?— Ela perguntou, acreditando que ele cederia.— Você me amava. Tanto que contratou uma substituta... exatamente igual a mim...
Marcelo fechou a mão livre em punho, a raiva misturada com a preocupação.
— Cala a boca!— disse ele, friamente.
Ele baixou o olhar rapidamente para Milena. Por um segundo, seus olhos pousaram nela com intensidade demais.
Milena sentiu o desconforto se espalhando pelo peito. A vergonha e tristeza a invadindo ao mesmo tempo. A frase ecoava na cabeça dela, pesada demais para ser ignorada. A insegurança tomou forma no aperto da garganta.
— Amor, não de ouvidos a ela.— continuou Marcelo.
Mas Milena não conseguia olhar para outro lugar a não ser na fragilidade que Kethelyn demonstrava. Sem dizer nada, ela deu um passo para trás, virou-se e subiu as escadas, quase fugindo.
— Que merda, Kethelyn!— disse Marcelo com a voz grossa e frustrada.
Ele observou Milena subir com passos lentos e cuidadosos, logo voltou-se para Kethelyn. Deu um passo à frente. O corpo se inclinou levemente na direção dela, o tom de voz baixo, frio, sem espaço para interpretação.
— Não ouse usar as minhas escolhas para justificar machucar minha mulher.— disse, cada sílaba calculada. — Se você e Katherine não tivessem recorrido a meios tão baixos, você não estaria aqui agora.
Os olhos dele estavam duros. Intransponíveis.
— Esse assunto morreu. E você sabe muito bem por quê. Se eu ouvir mais uma palavra sobre sua semelhança com ela, eu juro, que não importo em mostrar para o mundo quem é você de verdade.
— Do... do que está falando?— perguntou Kethelyn assustada, mas fingindo confusão.
Marcelo ficou em silêncio, virou as costas colocando um dos pés no primeiro degrau.
— Levem ela. — ordenou aos seguranças, com a mesma frieza. — O quarto já está preparado. E chamem a enfermeira. Quero que ela fique vinte quatro horas ao lado de Kethelyn, ajudando no banho e nos cuidados. Não ousem incomodar Milena com nada referente a ela.

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