O sorriso de Kethelyn não tremia. As mãos dela apertavam os braços de Milena com força suficiente para doer, mas não o bastante para denunciar de imediato a intenção.
Milena forçou a se manter calma e tentou se soltar, puxando o braço direito primeiro. O corpo pesado respondeu com atraso. O equilíbrio, já frágil, cedeu um centímetro para trás.
— Kethelyn, para. — disse, num sussurro urgente. — Você não sabe o que está fazendo.
— Eu sei exatamente o que estou fazendo. — respondeu ela, inclinando o rosto para mais perto. — Você tem que morrer para Marcelo me querer. Ele... nunca teve olhos para outra pessoa, somente para você.— continuou com a voz baixa.— Quando acordei do coma pensei que o veria, mas adivinha... descobri que ele tinha seguido a vida com outra.
— Por que mentiu sobre não poder andar?
— Eu precisava... fiquei quase três meses para me recuperar completamente dos anos que fiquei em coma.
— Tres meses? Você... já havia acordado? — murmurou enquanto tentava se soltar.
— Sim. Eu não ia deixar o Marcelo me ve daquele jeito.— Kethelyn sorriu e olhou por cima dos ombros dela.— Ah, Milena... não tem ideia de como eu estava ansiosa para fazer isso.
O movimento veio rápido demais para qualquer reação consciente. Kethelyn puxou Milena para si, como se fosse tentar abraçá-la e, no mesmo instante, deslocou o próprio peso para trás, soltando um dos braços apenas para criar a ilusão do desequilíbrio.
Milena sentiu o chão escapar. O primeiro degrau atingiu suas costas com um impacto seco, roubando-lhe o ar. O segundo fez a cabeça bater de lado, arrancando um som abafado que nem chegou a virar grito. O mundo virou um borrão de luzes, corrimão, sombras.
O corpo, pesado demais, seguiu. A barriga puxava tudo para frente, enquanto o resto era arrastado para baixo. Os degraus batiam contra pernas, quadril, ombros, sem ritmo, sem pausa. Não houve tempo para proteger o ventre. Não houve tempo para pensar. Só a sensação violenta de estar caindo.
Kethelyn soltou-se no terceiro impacto, o suficiente para ser projetada para o lado, girando o corpo e rolando alguns degraus acima, gritando alto demais.
Milena não ouvia nada. O corpo dela só parou no primeiro andar, atravessado no último degrau, metade no chão frio, metade ainda suspensa. A cabeça pendeu de lado. Os olhos ficaram abertos, mas vazios por alguns segundos longos demais.
Então veio a dor aguda que tomava tudo. Ela tentou respirar fundo, mas o ar entrou curto, falho. Um gemido escapou, involuntário. A mão direita se moveu primeiro, buscando a barriga num gesto instintivo, desesperado.
Foi quando sentiu o calor. O pânico voltou com força.
— Não… não… — murmurou, sentindo os dedos sujarem de sangue.
No andar de cima, Kethelyn começou a gritar.
— Socorro! — a voz ecoava exagerada, trêmula. — Eu caí… alguém me ajuda!
No quarto, Marcelo despertou com o som atravessando o corredor.
O coração disparou antes mesmo de ele entender o motivo. Levantou-se num pulo, o celular caindo da mão, o corpo reagindo antes da mente.
— Milena? — chamou, abrindo a porta.
Andou rapidamente, o que ele viu ao chegar ao topo da escada fez seu peito arder.
O corpo de Milena caído, o sangue formando uma poça enorme no chão. O silêncio pesado entre um gemido e outro.
— Milena! — gritou, descendo os degraus quase tropeçando.
Caiu de joelhos ao lado dela, sem se importar com a dor nas próprias pernas.
— Amor… olha pra mim. — pediu, a voz quebrando. — Fica comigo, por favor.
Os olhos dela se moveram devagar.
— Marcelo… — sussurrou, com dificuldade. — Minha barriga... está doendo…
Ele passou a mão pelo rosto dela, com cuidado desesperado.

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