Marcelo não ouviu mais nada depois da última frase do médico. O corredor pareceu se estreitar ao ponto de doer fisicamente. Um zumbido tomou seus ouvidos, e quando percebeu, já estava segurando o jaleco do médico com força suficiente para amassar o tecido entre os dedos.
— Não. — disse, baixo no início, a voz rouca. — Você não vai me pedir isso.
O médico tentou manter a postura profissional, mas recuou meio passo ao ver o olhar de Marcelo.
— Senhor, eu preciso que o senhor compreenda a gravidade...
— Eu compreendo tudo. — Marcelo o interrompeu, a voz subindo, tremendo de fúria e pânico. — O que você não vai fazer é me obrigar a escolher quem vive e quem morre.
Ele puxou o médico mais para perto, os olhos vermelhos, a respiração descompassada.
— Você vai salvar os cinco. — disse, cada palavra carregada de ameaça. — Minha mulher e meus quatro filhos. Não me importa como. Não me importa o risco. Não me importa o que você tenha que fazer.
— Senhor Marcelo, isso não funciona assim...
— Funciona, sim. — ele rosnou. — Porque você só sai dessa sala hoje depois que eu ouvir que eles estão todos vivos. Se algo acontecer com ela… — a voz falhou por um segundo, mas voltou mais dura. — Eu juro que derrubo esse hospital, processo cada nome que estiver nessa parede e faço questão que ninguém aqui volte a dormir em paz para o resto das suas vidas.
Algumas pessoas pararam no corredor. O clima ficou pesado.
Foi quando Alan chegou correndo, após receber a ligação da empregada da mansão, Ayla.
— Marcelo! — segurou-o pelos braços. — Marcelo, solta ele!
Marcelo resistiu, o corpo rígido, como se estivesse pronto para partir pra cima de qualquer um.
— Olha pra mim. — Alan insistiu, firme, mas com medo real. — Isso não vai ajudar a Milena. Você melhor que ninguém sabe disso.
O médico ajeitou o jaleco, respirando fundo. Antes de entrar novamente no centro cirúrgico, lançou um último olhar para Marcelo.
— Vamos fazer tudo o que for possível. — disse, sério. — Tudo.
As portas se fecharam. E então veio a espera.
Marcelo não conseguiu ficar em pé. As pernas simplesmente cederam, e ele acabou sentado no chão frio do corredor, as costas apoiadas na parede. Os cotovelos nos joelhos, as mãos no rosto.
O tempo deixou de existir. Ele rezou como não fazia há anos. Falou com Deus, prometeu coisas que nunca soube se poderia cumprir. Pediu, implorou, chorou em silêncio. Repetiu o nome de Milena como um mantra.
Mas as horas passaram sem nenhuma notícia.
Alan permaneceu ao lado dele o tempo todo, em silêncio, respeitando aquela dor crua, sentindo a dor do amigo em sua pele.
Quando as portas finalmente se abriram, Marcelo levantou num salto, o coração quase saltando do peito.
O médico saiu primeiro. O rosto cansado, mas no fundo dos seus olhos havia esperança.
— Senhor Marcelo.
— Fala. — Marcelo pediu, a voz quebrada. — Pelo amor de Deus, fala.
O médico respirou fundo antes de responder.
Apoiou as mãos na pia e encarou o próprio reflexo no espelho. Os olhos vermelhos, o rosto marcado, a respiração ainda descompassada. Por alguns segundos, não conseguiu se reconhecer.
As pernas tremiam sem controle. Ele abaixou a cabeça, sentindo o peso de tudo cair de uma vez.
— Obrigado… — murmurou, a voz quebrada. — Obrigado, Deus…
As lágrimas vieram sem aviso. Não houve esforço para contê-las. Ele ficou ali, parado, deixando que corressem.
Quando levantou o rosto novamente, viu o sangue seco nas mãos, nos braços, na camisa. Aquilo o atingiu de um jeito estranho, quase culpado. Abriu a torneira e esfregou as mãos com força, como se pudesse apagar o que quase tinha perdido. A água escorreu vermelha antes de clarear.
Molhou o rosto, passou a mão pelos cabelos e respirou fundo, tentando se recompor. Vestiu a camiseta limpa que Alan havia trazido, mas o peso no peito continuava ali.
O quarto estava silencioso. Milena parecia pequena demais na cama, o rosto pálido, marcado por hematomas, os fios de cabelo espalhados no travesseiro branco. Havia curativos, fios, o som constante e suave dos monitores.
Marcelo se aproximou devagar. Sentou-se ao lado da cama e segurou a mão dela com cuidado.
— Minha princesa... eu achei que ia te perder… — sussurrou, a voz falhando. — Eu fiquei com tanto medo. Tanto.
As lágrimas caíram sem resistência.
— Você é a pessoa mais forte que eu já conheci. — continuou. — Salvou nossos filhos… salvou a mim também e foi além do que a medicina pode explicar.
Ele levou a mão dela até o rosto e beijou os dedos com reverência.
— Eu vou ficar aqui o tempo todo. — prometeu. — Não vou a lugar nenhum. Nunca mais.

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