Marcelo seguiu pelo corredor, o coração pesado, em direção à UTI neonatal. O cheiro era diferente ali. Não lembrava hospital. Era mais limpo, mais frio. Um silêncio respeitoso, quebrado apenas por bipes ritmados e o som suave de aparelhos trabalhando sem descanso.
Ele entrou devagar. A enfermeira explicou o protocolo rápido, com a voz baixa, mas ele mal ouviu. Os olhos já estavam presos às incubadoras alinhadas, pequenas demais para conter tudo o que ele sentia.
Seus quatro filhos. Tão pequenos e já lutando para continuar vivos. Ele parou diante do primeiro. Era tão pequeno que parecia irreal. A pele avermelhada, os dedos finos, o peito subindo e descendo num esforço visível, auxiliado por fios delicados. Marcelo sentiu o ar faltar.
— Esse é um dos meninos. — a enfermeira disse com cuidado. — Está reagindo bem.
Marcelo assentiu, mas não conseguiu responder. A mão grande tremeu quando ele a apoiou no vidro da incubadora. Não chegou a tocar o bebê. Tocou o limite entre o mundo e o que ele jurava proteger.
— Papai está aqui, Dominic… — murmurou, quase inaudível. — Você não precisa ter medo.— A garganta fechou o peito ardeu.
Ele seguiu para a segunda incubadora. Outro menino. Parecido, mas diferente. Algo no formato do nariz. Na curva da boca.
— Meu pequeno, Mason, você puxou ela. — sussurrou, com um sorriso quebrado. — Teimoso desde agora.— Um riso curto escapou entre as lágrimas.
Na terceira incubadora, o terceiro menino parecia mais inquieto. Os pezinhos se mexiam, mesmo presos aos sensores. Ele era muito parecido ao Dominic, cabelinho ralo e clarinho.
Marcelo soltou o ar devagar.
— Esse aí vai me dar trabalho… — disse, com carinho. — Já estou até vendo. Certeza que era você que a mamãe reclamava quando chutava, né, Leon?
A enfermeira sorriu enquanto filmava tudo.
Quando chegou à última incubadora, o coração desacelerou por um segundo. A pequena Vallentina, menor entre todos. Mais frágil. A pele ainda mais clara. O corpo lutando com um silêncio mais atento ao redor dela.
Marcelo sentiu o peito apertar de um jeito diferente.
— Essa precisa de cuidado redobrado. — explicou a enfermeira. — Mas ela é forte. Está respondendo bem aos estímulos.
Ele balançou a cabeça, incapaz de responder. Ajoelhou-se lentamente diante do vidro. Os olhos marejados não desgrudavam daquele rosto minúsculo.
— Oi, meu amor… — a voz saiu em farrapos. — Eu sou seu papai.
As lágrimas caíram sem qualquer resistência.
— A sua mãe é a mulher mais forte que eu conheço e você puxou a ela. — continuou. — E eu prometo… que você nunca vai estar sozinha. Vou sempre estar do seu lado para segurar em sua mão, para enfrentar esse mundo que, às vezes, é tão assustador.
Marcelo ficou ali por longos minutos. Em silêncio. Respirando com calma e baixo para não assustar seus filhos. Aprendendo a amar de um jeito completamente novo.
Quando finalmente se levantou, passou a mão pelo rosto, tentando se recompor.
Lívia saiu com o coração apertado. Ela não conseguia explicar esse sentimento por Milena, mas era tão forte que desde o comunicado da queda, tudo que ela sabe fazer é chorar.
Mais tarde, quando Milena acordou foi devagar. Primeiro veio o som dos aparelhos, distantes. Depois o peso do próprio corpo. Parecia diferente, dolorido, estranho. As pálpebras custaram a obedecer. Quando finalmente se abriram, a luz branca a fez piscar algumas vezes, até que a imagem se ajustasse.
Ela tentou se mover e sentiu um incômodo agudo percorrer o abdômen. Um gemido baixo escapou de seus lábios ressecados.
— Meu amor… — a voz veio rápido, urgente, carregada de medo contido.
Ela virou o rosto com dificuldade. Marcelo estava ali. Sentado ao lado da cama, o corpo curvado para frente, como se não tivesse saído daquela posição em horas. Os olhos estavam vermelhos, o rosto marcado pelo cansaço.
— Marcelo… — a voz dela saiu fraca, quase um sopro.
Ele segurou a mão dela imediatamente.
— Eu estou aqui. — disse, com cuidado.
Milena tentou respirar fundo, mas o peito apertou quando a consciência veio inteira. O medo veio junto, violento, esmagador. A mão livre se moveu instintivamente até a barriga. E ao sentir aquele vazio, ela empalideceu.
— Os… — engoliu em seco. — Os meus filhos… cadê eles... Marcelo? Cadê meus filhos?

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