Milena permaneceu algum tempo ao lado do leito do pai, observando o subir e descer lento do peito sob os lençóis brancos. O monitor apitava em ritmo constante, quase reconfortante. Álvaro dormia, pálido, mas estável. Aquilo bastava por enquanto.
Ela segurou a mão dele com cuidado, como se pudesse quebrá-lo se apertasse demais.
— Vai ficar tudo bem… — murmurou, mais para si mesma do que para ele.
O médico havia explicado que as próximas horas seriam de observação. Nada de alarmante. O pior havia passado. Ainda assim, Milena não conseguiu relaxar completamente. O susto ainda vibrava por dentro, como um eco que se recusava a desaparecer.
Sentou-se na cadeira ao lado da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos. O cansaço finalmente começou a pesar. Não havia dormido ainda. O corpo inteiro parecia atrasado, como se ainda estivesse tentando acompanhar tudo o que havia acontecido desde que entrou pela primeira vez na sala de Marcelo.
Ela ficou ali até o enfermeiro avisar que o horário de visitas havia terminado.
— Pediram para te entregar isso.— o enfermeiro disse antes de sair.
Milena estreitou os olhos e pegou a sacola. Ao abrir tinha roupas novas, um calçado, produtos de higiene pessoal. Ela hesitou por um momento, mas entrou no banheiro lavando o rosto, vestindo as roupas elegantes demais para alguém que não tinha nada.
Antes de sair, inclinou-se e beijou a testa do pai.
— Eu volto mais tarde.
No corredor, respirou fundo. Precisava ir para a universidade. Faltar naquele dia só alimentaria a fúria dos professores. Já sentia o peso invisível dos olhares deles, mesmo antes de chegar lá.
Quando saiu do hospital, o carro já a aguardava.
Marcelo estava ao volante.
— Entra!— ele mandou abrindo a porta sem falar nada.
Ela hesitou por um segundo antes de entrar. Não sabia exatamente o que esperar. Juntando um pouco de coragem Milena sentou-se no banco do passageiro, ajustando o cinto com as mãos levemente trêmulas.
O percurso até a universidade aconteceu quase em silêncio.
Marcelo dirigia com atenção, postura impecável apesar do cansaço por de trás do seu olhar. Milena observava o movimento da cidade pela janela, tentando organizar os pensamentos. Em certo momento, sentiu o carro diminuir a velocidade.
— Seu pai vai ficar bem. — ele disse, de forma direta, sem desviar o olhar da pista.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Obrigada. — a voz saiu baixa. — Por ter… facilitado tudo no hospital.
Ele assentiu apenas uma vez.
— Não fiz nada que não esteja naquele contrato.
Nada mais foi dito.
Ao entrarem na universidade, Milena percebeu de imediato as cabeças virando. Os cochichos começaram antes mesmo de o carro parar por completo. Não era preciso ouvir para entender que estavam falando dela.
Marcelo estacionou próximo à entrada principal, ele apertou o botão no painel. Os vidros subiram com um zumbido suave e sincronizado, selando o interior em um casulo isolado. De fora, os vidros fumê tornavam tudo invisível, ninguém mais podia ver o que acontecia ali dentro.
— Agora pode ir. — murmurou, destravando as portas com um novo clique.
Milena piscou, ainda atordoada.
Marcelo desceu do carro e contornou a frente com passos firmes. Abriu a porta do lado de Milena e deu um leve espaço para que ela saísse.
Ela engoliu em seco antes de colocar os pés para fora.
Assim que desceu, os olhares ao redor se voltaram para eles. Alguns curiosos. Outros sem o menor pudor.
Marcelo fechou a porta e seguiu ao lado dela, sem tocar, mas a simples proximidade deixava claro que não estavam ali por acaso.
Eles caminharam juntos em direção ao prédio.
Marcelo alto, seguro, imponente, discutindo algo no telefone. Milena reduziu um passo atrás, queria parecer quase invisível ao lado dele, embora soubesse que toda a atenção recaía justamente sobre ela.
— É, ela foi a escolhida. — Carina murmurou, quase com decepção.
— Eu já sabia. Vi Milena saindo tarde da noite com ele. Ela arruma a roupa e estava com o rosto vermelho. Era óbvio que aconteceu alguma coisa lá dentro.— Uma das garotas comentou.
Milena manteve os olhos baixos. Cada palavra atravessava como uma lâmina fina. Não era novidade alguém falar dela. Mas aquilo era diferente. Todos sabiam que ela assinou um contrato sujo.
— Estou zero surpresa. Eu não disse para você Carina, que Milena não passava de uma puta barata.— Sara falou alto o suficiente para ser ouvida. — Ela só veio para cá para subir na vida. E olha como foi ambiciosa.

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