Dias depois, Milena recebeu alta. Ainda estava fraca, a dor pelo corpo ainda estava ali, caminhava devagar pelo corredor, apoiada no braço de Marcelo. Cada passo parecia exigir mais do que o corpo podia dar.
O médico e amigo de Marcelo tentou ser prático.
— Você pode voltar ao trabalho normalmente, Marcelo. Farei as visitas pessoalmente...
Marcelo o interrompeu com calma, mas sem margem para discussão.
— Não.
— Ouvi seu secretário falar sobre problemas na empresa.
— Não importa. Eu quero estar com ela todos os dias. — repetiu. — Sem exceção.
O médico assentiu.
Na ala da UTI, Milena encostou a cabeça no ombro de Marcelo, os olhos fechados, exausta. Depois de alguns segundos, falou baixo:
— Você não precisa parar tudo por mim… eu não quero ser um fardo para você.
Marcelo a virou de frente, colocou a mão na cintura dela com delicadeza, seus olhos se encontraram com os dela.
— Você nunca foi um fardo. — disse. — No momento em que quase te perdi o mundo ao redor deixou de ser importante.
— Amor… a sua empresa, a faculdade, o hospital... isso pode te trazer consequências graves.
— Dinheiro, carreira, tudo isso pode esperar. Mas você e meus filhos não.
Ela sorriu e logo virou para frente novamente. Pensar em deixar os bebês no hospital era sempre a parte mais difícil.
Milena ficou parada diante do vidro por mais tempo do que o necessário. Os quatro pequenos ali, ainda tão frágeis. O peito apertava como se algo estivesse sendo arrancado dela à força.
— Eu sei… — murmurou Marcelo, antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa.
Ela balançou a cabeça, os olhos marejados.
— Parece errado ir embora sem eles.
Marcelo a envolveu em um abraço firme, daqueles que sustentam quando o corpo já não consegue mais.
— Eles vão ficar bem. — disse perto do ouvido dela. — E você precisa descansar para estar forte quando eles vierem para nós.
Ela respirou fundo, tentando concordar com a razão enquanto o coração se recusava.
Abriu a mão e encostou a palma devagar, como se pudesse alcançá-los daquele lado. A cabeça baixa, os ombros caídos. As lágrimas escorreram sem que ela tentasse conter.
— Amanhã a gente volta, meus filhos. — disse ela entre um suspiro e outro. — Eu prometo.
No caminho até o carro, o silêncio se instalou. Milena olhava pela janela, perdida em pensamentos que Marcelo não tentou interromper.
Quando o carro entrou em movimento, ele estendeu a mão, envolveu a dela com cuidado e a levou aos lábios. Um beijo simples, demorado.
Milena fechou os olhos por um instante.
— Eu amo você...— ele disse baixo.
A mansão surgiu à frente como um lugar que ainda precisava reaprender a ser casa.
Assim que Milena entrou, seus passos a levaram até a escada. O corpo respondeu antes da mente. Os pés travaram. A respiração falhou.
Marcelo entendeu na hora.
— Eu estou aqui… — disse baixo.
Nos dias seguintes, a rotina se repetiu. Todos os dias, eles voltavam ao hospital. Mesmo quando ela dizia que estava cansada. Mesmo quando dizia que podia ir sozinha. Mesmo quando o mundo exigia que ele estivesse em outro lugar.
Marcelo estava ali sendo o homem que ele jamais imaginou conseguir ser.
Alguns dias depois, a espera finalmente chegou ao fim.
— Hoje é o dia. — anunciou a enfermeira, sorrindo. — Vallentina e Mason também vão para casa.
Milena levou a mão ao peito, como se precisasse confirmar que aquilo era real. Marcelo fechou os olhos por um segundo, respirou fundo. Não disse nada. Apenas segurou a mão dela com mais força.
"Finalmente o sofrimento acabou."— ela pensou.
Quando Vallentina foi colocada nos braços de Milena, ela chorou. Não tentou esconder. Beijou a testa da filha, depois a bochecha com carinho.
Mason veio em seguida. Marcelo o segurou com cuidado, o mesmo cuidado de sempre, mas agora com um sorriso que não cabia no rosto.
Mais tarde, de volta à mansão, os quatro berços estavam alinhados. Leon, Dominic, Vallentina e Mason dormiam profundamente.
Milena parou diante deles. Ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo a cena como quem teme que tudo desapareça se piscar.
Marcelo se aproximou por trás, envolvendo-a com os braços com cuidado, o corpo colado ao dela. Ele se inclinou levemente, falando baixo, para não acordá-los.
— Agora sim… — murmurou. — Todos em casa.
Milena levou a mão até o peito, sentindo o coração bater forte demais.
Marcelo apoiou o rosto no cabelo dela.
— E vão continuar. — afirmou, firme. — Ninguém nunca vai conseguir separar a gente.

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