Milena desligou o chuveiro com dedos trêmulos. A água ainda escorria pelo corpo, fria agora, mas ela não sentia mais nada. Enrolou-se na toalha branca, apertou o tecido contra o peito. Respirou fundo, olhou-se no espelho embaçado, passou a mão para limpar um pedaço de vidro. Os olhos vermelhos a encararam de volta. Não dava para esconder aquilo.
Abriu a porta do banheiro devagar. O quarto estava silencioso. Percorreu os olhos pelo espaço e notou na mesma hora: os berços estavam vazios. O silêncio era quebrado apenas pelo som distante, vindo da babá eletrônica no criado-mudo. Lívia cantava baixinho uma canção de ninar antiga. Milena fechou os olhos por um segundo.
Com a mão no peito, deu um longo suspiro. Não tinha coragem de encarar Marcelo. Mas ele estava ali se aproximando com passos leves contra o carpete. Antes que ela pudesse se virar completamente, braços fortes a envolveram por trás. Ele a puxou contra o peito, o queixo encaixado no ombro dela, lábios quentes encontrando a curva do pescoço. Um beijo lento, carinhoso, daqueles que normalmente a faziam derreter.
— Você demorou. — murmurou ele contra a pele úmida. — Não via a hora de te ver abrindo aquela porta e te abraçar.
Milena ficou rígida. O abraço dele era o que ela precisava sentir. Mas as imagens voltaram como força: o quarto escuro, o menino amarrado, a mulher que ela chamava de mãe rindo baixo enquanto…
Ela virou o rosto devagar, mas evitou os olhos dele. Fixou o olhar no chão, nas próprias mãos que seguravam a toalha com força demais.
Marcelo estranhou o silêncio. Afastou-se um pouco, o suficiente para girá-la nos braços. Quando viu o rosto dela, franziu a testa.
— Amor… — Segurou o queixo dela com delicadeza, erguendo o rosto. — Olha pra mim.
Milena até tentou. Conseguiu por meio segundo. Os olhos dele eram profundos e expressivos. Mas agora ela via outra coisa ali. Via o menino de treze anos. Via o medo. Via o que a mãe dela tinha feito. Via a dor. E mesmo tentando evitar o estômago revirou de novo.
As lágrimas encheram os olhos antes que ela pudesse impedir.
Marcelo segurou o rosto dela com as duas mãos, polegar limpando uma lágrima que escorreu.
— Amor… o que aconteceu? Lívia disse que você está calada desde que chegou. Fala comigo.
Ela balançou a cabeça devagar. Não conseguia responder. Se falasse, tudo desabaria. O relacionamento. A família. A confiança. Como contar ao homem que ama que sabe que a mãe dela, que ele foi covardemente abusado.
Em vez de responder, Milena se inclinou e o beijou. Foi um beijo desesperado, molhado de lágrimas. Os lábios tremiam contra os dele. Ela segurou a nuca dele com força, como se pudesse se agarrar a ele e impedir que o mundo desmoronasse. Marcelo correspondeu no início, surpreso, mas logo sentiu o gosto salgado das lágrimas. Parou o beijo, afastou o rosto apenas o suficiente para olhar para ela.
As mãos dele voltaram ao rosto dela, segurando firme.
— Milena… — A voz saiu rouca de preocupação. — Me diz o que tá acontecendo. Você tá me assustando.
Ela forçou um sorriso. Fraco, trêmulo, mas era o que conseguia oferecer.
— Eu só… te amo demais. — A voz falhou no final. — Só isso.

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