Marcelo guardou a caixinha no bolso interno do paletó.
— Enfim... estou cansado de viver preso na sombra do passado. Quero poder viver em paz com a minha família. E quanto menos ela souber, melhor.
Alan o observou por alguns segundos.
— Então vai ser hoje que o senhor De Valliérie se tornará intocável?
Marcelo sentiu o corpo relaxar por um momento.
— Intocável por outras mulheres já tem anos. — respondeu com um sorriso. — Ela disse que ia preparar algo em casa. Sei que ela tem muita vontade de comemorar meu aniversário. Mas mesmo assim respeita minha decisão
Alan riu baixo. Os dois pegaram as pastas e saíram da sala. O corredor da universidade estava quase vazio. As luzes já estavam mais baixas, e o som dos passos deles ecoava pelo piso de mármore.
Eles atravessaram a porta principal do prédio. A noite estava fresca, e o estacionamento estava mal iluminado. Apenas alguns carros permaneciam ali.
Marcelo colocou a mão no bolso, o coração batia mais rápido só de imaginar a surpresa de Milena com o pedido, ela sorrindo. Os bebês por perto. Uma família completa. A família que ele tanto desejou.
— Parece nervoso. — disse Alan.
— Um pouco.
— Quem diria que eu viveria para ver essa cena.— Alan riu, fazendo Marcelo esboçar um sorriso.
Eles continuaram caminhando lado a lado em direção aos carros. Foi quando Alan percebeu algo estranho. Um homem de moletom preto, com o capuz cobrindo a cabeça, caminhava devagar pelo estacionamento. O rosto estava baixo, quase escondido.
— Que estranho. Há essas horas ainda tem alunos por aqui? — perguntou Alan, em voz baixa.
Marcelo olhou.
— Não costuma ter.
O homem continuava andando, cabeça baixa, mãos nos bolsos do moletom. Parecia só mais alguém atravessando o campus vazio. Mas havia algo errado no ritmo dos passos.
Marcelo percebeu tarde demais. O homem parou de repente. A mão saiu do bolso e foi direto para a cintura. O metal brilhou sob a luz do poste.
— Marcelo, cuidado! — gritou Alan.
O disparo ecoou seco na noite.
Marcelo tentou se virar, mas não houve tempo. O impacto o atingiu no abdômen com força brutal. Não foi como nos filmes. Foi pior. Um choque violento que roubou o ar dos pulmões.
Ele levou a mão ao estômago instintivamente. Quando olhou para baixo, o sangue já começava a manchar a camisa. As pernas falharam.
Alan o segurou antes que ele batesse no chão.
— Marcelo! Marcelo, olha pra mim!
A dor veio em ondas, intensa, profunda, queimando por dentro. Marcelo tentou puxar ar, mas parecia que o peito não obedecia. O mundo ficou distante por um segundo.
O atirador correu.
O porteiro correu. Alan gritou por ajuda, a voz ecoando pelo estacionamento quase vazio.
— Chame uma ambulância! Agora!
Marcelo apertou a camisa ensanguentada com força, tentando conter o sangue que escorria entre os dedos. A visão começou a embaçar.
— Não… me deixa dormir… — murmurou, a voz fraca.
— Não vou deixar. Não fecha os olhos! — Alan segurou o rosto dele. — Fica comigo! A ambulância já está vindo!
Marcelo tentou focar no amigo, mas tudo parecia distante. A única coisa clara na mente dele era o rosto de Milena, os filhos.
Enquanto isso, na mansão, o celular de Milena vibrou sobre a mesa da cozinha. Ela estava terminando de arrumar os pratos. O jantar já estava pronto. As velas ainda não tinham sido acesas, mas tudo estava preparado.
— O que aconteceu? — a voz dela saiu quase sem som. — Eu recebi uma foto… Fala comigo, por favor…
Alan fechou os olhos por um instante, encostado na parede fria do hospital. Ainda havia sangue nas mangas da camisa.
— O Marcelo foi baleado.
— Não… — a palavra saiu em forma de choro. — Não… isso não pode estar acontecendo… não pode.
— Escuta, Milena. Ele já está no hospital. Os médicos levaram ele para a cirurgia agora há pouco.
Ela levou a mão ao peito, sentindo a dor se espalhar pelo corpo inteiro.
— Ele… ele vai ficar bem, não vai? — perguntou, desesperada.
Alan hesitou por um segundo.
— Os médicos estão fazendo tudo o que podem. Mas você precisa vir para cá agora. Corre para o hospital, Milena.
As lágrimas já escorriam sem controle.
— Eu estou indo… estou indo agora.
Ela desligou o telefone. Pegou as chaves sem nem perceber que estava chorando alto. O coração batia descompassado.
Lívia que estava com a babá e os bebês no andar de cima desceu correndo ao ouvir Milena.
— Mi, por que está chorando?
— Cuida dos meu filhos, por favor. Não tira os olhos deles. Eu preciso ir para o hospital... Marcelo... ele foi baleado.
Lívia balançou a cabeça concordando. Ela queria fazer perguntas, mas sabia que não era o momento.

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