O carro ainda estava parado em frente ao prédio quando Marcelo rasgou o envelope com as mãos trêmulas.
Alan percebeu que ele mal respirava.
— Marcelo… espera. Vamos com calma.
Mas ele não conseguia ouvir. Puxou a folha dobrada de dentro do envelope. Reconheceu imediatamente a letra firme, organizada, cada curva que já tinha visto em bilhetes deixados na mesa, em receitas grudadas na geladeira, em anotações esquecidas na cabeceira.
Ele começou a ler. A primeira linha bastou para saber que aquilo era uma despedida.
O celular tocou interrompendo a leitura. Era do banco mais uma vez, ele pensou em recusar novamente, mas atendeu.
— Senhor De Valliére, estou entrando em contato só para avisar que a senhora Carlson retirou 50 mil da conta dela hoje pela manhã. Ela parecia aflita e com pressa. Esperamos que esteja tudo bem...
Marcelo sentiu os dedos tremerem, o celular escorregou da mão dele e caiu no banco.
Alan se inclinou.
— O que foi?
Marcelo não respondeu. Os olhos caíram para a carta numa tentativa de ver o que estava escrito, mas a respiração ficou irregular. O peito subia e descia rápido demais. A dor no abdômen, que até então ele ignorava, voltou a pulsar com força.
Uma mancha vermelha começou a se espalhar pela camisa. Alan percebeu na hora.
— Droga… você está sangrando.
Ele puxou a carta da mão de Marcelo e pegou o celular que havia caído no banco do carro.
— Primeiro você vai se cuidar. Depois lê isso.
— Não… — Marcelo tentou alcançar o papel de volta. — Eu preciso saber…
A visão dele começou a escurecer nas bordas. O coração batia descompassado. O ar parecia insuficiente.
— Marcelo, nós já sabemos que ela foi embora. — disse Alan, firme. — Essa ligação e essa carta é a resposta. Mas se continuar assim, você vai voltar direto para o hospital. E dessa vez pode não sair tão fácil.
Marcelo passou a mão pelo rosto molhado.
— Eu preciso entender o que fez ela ir embora…
A dor no peito apertou. A vista ficou turva. Ele tentou dizer mais alguma coisa, mas as palavras não saíram. O corpo cedeu.
Alan o segurou antes que ele caísse para o lado.
— Vamos para a mansão. — pediu ao motorista.
O carro arrancou. Durante o trajeto, Marcelo permaneceu desacordado. Alan pressionava o curativo improvisado contra o ferimento, preocupado com a palidez do amigo.
— Você não pode desmoronar agora. — murmurou.
Quando chegaram à mansão, Ayla abriu a porta assustada.
— Meu Deus…
— Ele está bem. — mentiu Alan. — Chama o médico da família.
Com a ajuda de Devil, subiram com cuidado até o quarto principal. Colocaram Marcelo na cama. O médico chegou pouco depois, examinou o ferimento, refez os pontos que haviam cedido e aplicou medicação para estabilizá-lo.
— Ele precisa de repouso absoluto. Nada de estresse. — orientou.
Eu nunca quis ocupar o lugar de ninguém. Nunca quis ser uma lembrança do passado. Eu só quis te amar. E eu te amei. Amei da forma mais bonita”
Uma lágrima caiu sobre a folha. Ele levou a mão ao rosto, mas não conseguiu conter as outras.
“E eu te amo, Marcelo. Amo como nunca imaginei amar alguém. Amo o homem que você é, o pai que você se tornou, que sempre tentou me proteger. E é exatamente por isso que eu estou indo embora.
Porque se eu ficar, ela vai continuar. Vai usar nossos filhos. Vai usar você. E eu não posso permitir isso.”
O peito dele apertou com força. Ele passou a mão pelo abdômen, como se a dor fosse física.
“Pode parecer egoísmo. Talvez realmente seja. Talvez você pense que eu não confiei em você o suficiente para enfrentar isso juntos. Mas eu precisava proteger as crianças. Precisava proteger você, proteger meu pai.
Sei que se eu me afastar, ela perde o motivo. Perde a arma que usa contra você.”
Marcelo balançou a cabeça negativamente, em silêncio.
— Não… — murmurou.
“Me perdoa por levar nossos filhos. Perdoa por decidir sozinha. Eu sei que você nunca nos machucaria. Eu sei que você lutaria por nós. Mas eu não posso arriscar perder nenhum deles. Nem você.
Eu não vou amar outro homem. Isso não é promessa infantil, é certeza. Você foi o único que eu escolhi. E será o único que eu vou amar. Mas, por enquanto, eu preciso me afastar. Se um dia tudo isso acabar, se um dia for seguro, talvez eu volte. Até lá, guarda no coração que eu fui embora porque te amo. Não porque deixei de amar.”
As últimas linhas estavam manchadas, como se ela tivesse chorado ao escrever.
“Adeus, meu amor. Cuida de você.
Milena.”

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