"Algumas feridas não nascem da mentira. Nascem quando percebemos que alguém escolheu por nós."
— Não me toca!
A frase saiu baixa, mas teve força suficiente para fazer Edward ficar completamente imóvel.
Por um segundo, o silêncio entre os dois pareceu pior do que qualquer grito.
Dayse enxugou o rosto com a mão trêmula, tentando recuperar uma estabilidade que não conseguia encontrar, porque cada resposta dele reorganizava o passado inteiro dentro da sua cabeça.
— Você entende o que fez?
Edward assentiu lentamente.
— Não. Você não entende.
Ela balançou a cabeça, e sua voz ficou mais firme, ainda que continuasse carregada de mágoa.
— Eu passei noites sem dormir, Edward. Eu entrei nesse acordo acreditando que tinha uma dívida que jamais conseguiria pagar, eu aceitei usar um anel, fingir um noivado, mudar minha rotina e me aproximar de você porque achei que estava tentando consertar um erro meu.
A garganta dela apertou.
— Mas o erro já tinha sido resolvido.
Edward fechou os olhos por um instante.
— Sim.
— Então eu nunca estive pagando uma dívida.
A respiração dela saiu irregular.
— Eu estava presa em uma história que você decidiu continuar porque me queria perto.
Edward abriu os olhos imediatamente.
— Eu queria você perto porque já estava apaixonado por você.
Dayse encarou-o com dor.
— Como eu vou saber?
Ele ficou imóvel.
— Dayse...
— Como eu vou saber se isso também não é só mais uma versão conveniente?
A pergunta pareceu atingi-lo no peito.
— Como vou saber se tudo o que você disse para Liliana não foi mais uma mentira?
Edward deu um passo para frente, desesperado demais para permanecer parado, mas ela recuou de novo, e o movimento fez algo dentro dele se partir de forma visível.
— Não foi mentira.
— Eu quero acreditar nisso.
A voz dela falhou.
— Esse é o problema.
Edward passou a mão pelos cabelos, perdendo por um instante aquela postura impecável que sempre o fazia parecer intocável.
— Eu amo você.
Dayse fechou os olhos com força.
— Eu amo você como jamais amei alguém antes, e isso não tem nada a ver com contrato, dívida, noivado ou qualquer escolha errada que eu tenha feito para manter você perto no início.
Ele respirou fundo, e, quando voltou a falar, a voz saiu mais baixa.
Mais crua.
— Eu fui egoísta. Eu fui covarde. Eu vi uma oportunidade e usei porque queria você na minha vida e porque achei que, se tivesse tempo, conseguiria fazer você me enxergar como homem e não apenas como seu chefe.
Dayse abriu os olhos devagar.
As lágrimas acumuladas deixavam seu olhar mais brilhante, mas não havia suavidade nele.
Havia decepção.
E aquela decepção assustou Edward mais do que qualquer raiva.
— Você decidiu por nós dois.
A frase saiu baixa.
Mas foi a que mais doeu.
Edward não tentou negar.
— Sim.
— Você tirou de mim a chance de escolher desde o começo.
Ele sustentou o olhar dela, e a culpa em seu rosto era tão evidente que Dayse precisou desviar os olhos para não enfraquecer.
— Eu sei.
— Não, Edward. Você não sabe.

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