“Regras são fáceis de seguir… até o momento em que deixam de fazer sentido.”
No Departamento Jurídico.
O olhar de Clara desceu por um segundo, analisando Dayse de cima a baixo, como se procurasse marcas invisíveis da noite anterior.
— Dayse, amiga, coloca uma coisa na sua cabecinha— completou, suavizando a voz, mas carregada de provocação — você está noiva do homem mais arrogante, rico e desejado dos Estados Unidos e agora é oficial. Então sua vida nunca mais será a mesma depois disso.
O silêncio que veio depois da última fala de Clara não foi imediato, mas se instalou aos poucos, pesado o suficiente para interromper o ritmo natural da conversa.
Dayse não respondeu de imediato, porque ela realmente não sabia o que dizer. Clara estava certa, por mais que tudo fosse de mentira para eles, para o mundo era real, muito real.
O olhar dela desceu devagar até a própria mão. A pedra refletia a luz do escritório com intensidade demais para algo que deveria passar despercebido, chamando atenção, impondo presença, como se lembrasse o tempo todo o que aquilo representava para quem estava de fora.
Os dedos dela se moveram de leve enquanto ajustava o anel, em um gesto discreto e quase automático, mas que deixava claro que ela estava plenamente consciente do que aquilo representava.
Ela respirou fundo. E então falou, ainda sem levantar o olhar:
— É apenas um contrato.
A frase saiu firme e segura, mas não perfeita, porque no final houve uma pequena falha, quase imperceptível, mas ainda perceptível para quem prestava atenção.
E Marina percebeu na hora.
O olhar dela passou rapidamente por Clara e voltou para Dayse, mais atento, como quem já tinha entendido que aquilo não era tão simples quanto parecia.
— Para vocês dois… pode até ser — respondeu, com calma, mantendo a voz neutra, mas sem suavizar o significado — mas, para todo mundo lá fora, isso já é real.
Clara ficou em silêncio dessa vez, o que, vindo dela, já era uma raro. Ela apenas observou Dayse com atenção, analisando a situação, tentando entender até que ponto aquilo ainda era controle e em que momento já tinha deixado de ser.
Dayse levantou o olhar primeiro para Marina. Depois para Clara. E, por um segundo, ficou claro que ela tinha escutado. Mas, em vez de responder, apenas endireitou a postura, fechou o notebook com um movimento controlado e puxou o ar com mais firmeza.
Porque, pela primeira vez, não era o que os outros estavam vendo que incomodava. Era o fato de que aquilo estava começando a parecer real até para ela.
Clara percebendo a hesitação da amiga, resolveu mudar o rumo da conversa.
— Me conta uma coisa… — Clara começou, inclinando o corpo sobre a mesa, diminuindo a distância entre elas com um sorriso provocador que já denunciava que vinha coisa perigosa — você voltou para casa… sozinha?
Dayse fechou os olhos por um segundo, puxando o ar com mais força do que o necessário, como se estivesse contando até três antes de responder.
— Clara…
— Não, espera — continuou, ignorando completamente o aviso, o tom agora mais baixo, mais íntimo, mais inconveniente — eu só quero saber se você finalmente transou com ele.
— Clara — Marina cortou, firme, o olhar direto nela — já deu.
Clara ergueu as mãos em falsa rendição, mas o sorriso continuava lá.
— O quê? Eu só estou interessada no desenvolvimento do relacionamento da minha amiga.
Dayse abriu os olhos. E dessa vez… estava vermelha.
— Trabalha, Clara — respondeu, mais seca agora.
A resposta foi curta, mas o tom não. E isso foi o suficiente para que Clara levantasse as mãos em rendição teatral, embora o brilho nos olhos denunciasse que ela estava longe de desistir.
— Tá bom… por enquanto — murmurou, arrastando a cadeira de volta para sua mesa, mas ainda olhando por cima do ombro. — Mas no almoço quero saber de todos os detalhes.
— Depois a gente conversa — disse Dayse antes mesmo que Marina abrisse a boca, sem tirar os olhos da tela.
Marina arqueou levemente a sobrancelha.
— No almoço — completou Dayse, agora erguendo o olhar apenas o suficiente para sustentar o da colega por um segundo.
Marina assentiu e se afastou indo até a sua mesa.
Os minutos seguintes foram tomados por trabalho.
E, ali… Dayse não fingia. Ela dominava.
Os dedos se moviam com rapidez e precisão enquanto analisava cláusulas contratuais, cruzava informações financeiras com termos jurídicos e ajustava pontos críticos de um acordo complexo que claramente tinha passado por mãos menos competentes antes de chegar até ela.
Os olhos percorriam cada linha com atenção cirúrgica.
O olhar dela demorou meio segundo a mais na mão de Dayse. Ela não apenas lia. Ela desmontava, reconstruía, melhorava. E era exatamente por isso que, mesmo em meio ao caos interno, que o mundo ao redor ainda a levava a sério.
— Impressionante… — uma voz masculina nova surgiu, interrompendo o silêncio técnico do ambiente.
Dayse ergueu o olhar e encontrou alguém que não estava ali ontem.
Um homem alto, loiro com uma postura impecável. O terno escuro ajustado com perfeição, mas com um corte ligeiramente diferente e um olhar atento, que demorou um segundo a mais do que o necessário sobre o rosto dela. E depois desceu discretamente, mas não o suficiente para passar despercebido.
— Desculpe interromper — ele continuou, aproximando-se com passos seguros — Maksim Volkov. Acabei de ser transferido da filial de Moscou.

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